Repensando o iPhone
Segunda Feira, 14 Maio, 12h09
O iPhone da Apple me lembra um sonho que costumava ter. Ainda bem que acordei!
Não muitos anos atrás, descrevi minha visão da tecnologia do futuro como um dispositivo que caberia em um pequeno berço e serviria de base para toda sua computação. Você poderia carregá-lo no seu bolso, e serviria como seu telefone celular, TV, MP3 Player e um útil GPS. Frequentemente eu discutia este dispositivo imaginário em minhas palestras. Durante minha apresentação em PowerPoint, o último recurso que listava era um LoJack, um dispositivo anti-furto para rastreamento de veículos, já que as pessoas iriam querer roubar essas coisas. Todos riam.
Agora parece que a Apple está indo nessa direção, de certa forma, com o iPhone. Então pergunto a mim mesmo o porquê não gostei da minha própria visão do futuro. Será que meu ceticismo quanto à Apple está atrapalhando meu raciocínio lógico? Ou será alguma outra coisa? Alguma coisa, talvez como, uh, realidade?
Em primeiro lugar, o iPhone não pretende ser um substituto do computador, mas sim um substituto de um iPod e um telefone, por enquanto. Talvez algum dia ele ganhe um GPS embutido. Talvez ele realmente rode o Mac OS X e seja um computador de bolso. Vamos assumir que ele é exatamente o que eu previ: o faz-tudo tecnológico definitivo que vai matar todos os outros.
Então, por que estou criticando o aparelho? E por que estou demonstrando as mesmas características que critico em outros que as demonstram - criticar um produto de uma forma ou de outra sem mesmo vê-lo ou tê-lo usado?
Por que? Por que? Por que?
É provavelmente pela mesma razão que eu deixei de dar aquela palestra dois anos atrás. Eu não falo mais sobre esse computador portátil futurista porque deixei de acreditar no conceito, depois de tomar tapas da realidade com tanta frequência. Quando o iPhone apareceu, eu já estava avesso à toda aquela idéia de qualquer tipo de consolidação, seja da Apple ou de qualquer outra empresa. E além disso, como uma das poucas pessoas na América do Norte com telefone touch-screen sueco da NeoNode, similar ao iPhone, eu estou essencialmente brincando com a mesma coisa já há quase dois anos. (na verdade, eu provavelmente tenho o único, já que ele foi feito sob encomenda para funcionar aqui. É ótimo para puxar papo.)
Que tipo de telefone celular eu uso no dia-a-dia? Uso o que a galera de Baltimore chama de “burner”: Um telefone quase descartável e barato, que custa quase nada para ter e usar. Desisti de ter os telefones mais legais e mais novos e gastar uma fortuna só para usá-los. Estou cheio de ser roubado pelos games de celulares . Estou também com nojo de ver pessoas falando nessas coisas constantemente, especialmente enquanto dirigem. Calem a boca, por Deus, e olhem a rua!
Este é o motivo pelo qual não gosto do iPhone. Não estou à fim de ver outra rodada da “moda móvel” quando estou de saco cheio disso.
E ainda tem essa coisa com o iPod. Eu brinquei com os primeiros MP3 players e eventualmente fiquei chateado em ter de ouvir tanta música. E me digam, qual é exatamente a vantagem de ficar se remexendo ao ritmo da música enquanto sentado no sofá? Mas chega, já estou começando a parecer um velho ranheta, e isso são só reclamaçõezinhas. São as tendências que me preocupam.
Vamos voltar à minha máquina dos sonhos de poucos anos atrás. Não é uma possibilidade, já que os dispositivos não podem ser totalmente consolidados, não importa o quanto as pessoas tentem. Eu pessoalmente desisti da idéia. O iPhone é um sonho de consolidação. Em outras palavras, é um devaneio. Ele não será nada mais que uma febre passageira como um acessório da moda, e nunca vai dar certo como substituto de um iPod ou telefone celular. Sim, você será a pessoa mais descolada quando tirá-lo do bolso e mostrá-lo, mas isso deixa de ser legal quando três outras pessoas já os tiverem ou se alguém tiver um que brilha no escuro.
Sim, estou irritado com iPhone, sem vê-lo de antemão, porque ele representa um objetivo inatingível, um ideal utópico. As forças da fragmentação sem fim são fortes demais para qualquer coisa que queria derrotá-las. A prova que ninguém quer levar em conta são todos os smartphones fracassados que chegaram e depois sumiram. E não vamos esquecer do telefone da Motorola com um iPod embutido (lembra do ROKR?). Que fracasso!
Qualquer tipo de consolidação de dispositivos, como o que o iPhone promete, é um castelo no ar e vai contra tendências reais e imutáveis. O problema é: ninguém quer admitir que essas tendências existem – e ainda assim elas estão aí.