Em estilo e, de certa forma, funcionalidade, ele lembra o detestado e desprezado dongle.
Eu sempre me impressiono ao ver como o agora onipresente drive USB (ou pendrive) se tornou, bem, onipresente. E quem deu a ele esse nome de “pendrive”? A mim ele não se parece muito com uma caneta. De qualquer maneira, existe uma estranha ironia em tudo isso, visto que seu estilo e um pouco de sua funcionalidade derivam do antigamente detestado e desprezado dongle.
O dongle foi um dispositivo de proteção anti-cópia praticamente fracassado que surgiu na década de 80. E também foi um ponto controverso. Começou como algo que você plugava em uma porta serial ou paralela e evoluiu lentamente até algo plugável em uma porta USB. A idéia inicial era de que o software protegido simplesmente se recusaria a rodar a não ser que encontrasse o dongle. Como o software era muito fácil de copiar, os fabricantes preocupados com a pirataria acreditaram que hardware seria mais difícil de duplicar, pois seria um tipo de hardware proprietário.
O dongle existe em produtos destinados a nichos muito específicos (como áudio profissional). Ninguém mais se importa muito com ele. O grande medo na época era de que o dongle deixasse de funcionar subitamente após alguma atualização de sistema da Microsoft. Até o problema ser corrigido, você já teria ido à falência. O dongle era geralmente encontrado em sistemas comerciais especializados onde, se ele parasse, você perderia dinheiro.
Agora há a possibilidade de que o pendrive possa se tornar o mecanismo de distribuição de software e um dongle em um só. Porque não? Existem poucos softwares que não cabem em 2 GB. A Mandriva lançou um pendrive de 1 GB que roda uma versão completa do Mandriva Linux e ainda deixa 500 MB livres para armazenamento de arquivos ou outras finalidades. Basta plugar o dispositivo em uma porta USB, reiniciar o computador e, voilà, você está rodando o Linux.
Bem, isto se funcionar, já que ele é chato quanto ao hardware no qual roda. Mesmo que sejam somente aplicativos em vez de um sistema operacional, devemos nos abster da idéia de distribuir software em um pendrive em vez de CD-ROm ou DVD. Isto poderia levar a uma vontade de voltar aos dongles, e deve ser evitado a todo o custo.
Posso imaginar um contador não muito brilhante em uma empresa de software fazendo uma análise de custos e decidindo que a empresa pode arcar com os custos de distribuir seu software, que custa US$ 100, em pendrives de US$ 5 em vez de CD-ROMs de US$ 0,15. Por que? O raciocínio e que cada cópia pirata custaria à empresa mais de US$ 90 de qualquer jeito. Então a economia na proteção anti-cópia compensaria o custo extra do pendrive.
Isso é insano, claro, já que alguém certamente vai inventar um “pendrive virtual” que poderá rodar todos os softwares distribuídos dessa forma. Mas isso não é o problema. O problema é que, se a idéia se tornar popular e as empresas decidissem distribuir softwares em pendrives combo com dongle, ficaríamos com HUBs USB atulhados de dispositivos pendurados em todos os cantos.
Esse foi o problema há muito esquecido com os dongles. As empresas pensavam que poderiam implementar um dongle porque, é claro, o único software que o usuário jamais precisaria usar em seu micro seria a última versão de seu maravilhoso software e nada mais . Que egomaníacos.
Então, temos que dissuadir os fabricantes de software de usar os pendrives dessa maneira, e provavelmente desencorajá-los de usar pendrives de qualquer forma, já que invarialmente eles irão, lentamente, se mover em direção ao dongle. É irresistível. Posso até ouvir um idiota qualquer em uma sala de reuniões perguntando ao CEO: “Por que não protegemos melhor nossos softwares da pirataria? Eu ouvi falar que um pendrive pode ser usado para isso.”
Existem bons usos para os pendrives. Você pode carregar por aí um filme completo em MPEG-4. Press-kits para imprensa agora são comumente distribuídos em pendrives. É uma ótima jogada de marketing, pois o material será provavelmente pelo menos lido ou transferido para um computador antes do drive ser apagado e usado para outras finalidades. Se o mesmo press-kit fosse distribuído em um CD-ROM ou papel, ele seria simplesmente jogado fora.
O principal uso para um pendrive, entretanto, é pessoal. Eu carrego um comigo o tempo todo para pegar um ou outro arquivo ocasional na máquina de alguém. Ele também serve como uma nova versão da “sneakernet”, aquela “rede” no padrão “disquete pra lá, disquete pra cá”. Também vem a calhar para armazenar apresentações do Power Point ou outros arquivos necessários como backup, caso meu laptop deixe de funcionar ou eu não tenha um computador à mão. Com o U3, Migo, Mojopac, Ceedo e outros utilitários, ele pode ser usado como um substituto ou uma máquina virtual quando plugado em um computador desconhecido.
Apesar dos pequenos drives se tornarem mais e mais baratos, vamos fazer o que for possível para que eles não se tornem meio para distribuição de softwares, antes que nos arrependamos deles terem sido inventados. Caso contrário, os dongles vencerão.
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