John C. Dvorak

John C. Dvorak
PC Magazine
O estilo de vida descartável e a depreciação acelerada
Quinta Feira, 08 Março, 18h25

Quase todas as bugigangas tecnológicas antigas são inúteis. Então porque eu ainda insisto em guardá-las?

Recentemente um interessante artigo foi publicado pela antropologista Jeanne Arnold, estudando o estilo de vida dos norte-americanos e relatando como a classe média, principalmente, está acumulando tanta tralha que isso é quase um tema em suas vidas. Eu sofro disso, simplesmente porque não há horas suficientes no dia para filtrar e descartar todas as porcarias que se acumulam.

Eu concordo com a idéia de que há um lugar para tudo e tudo tem o seu lugar, e que se você simplesmente colocar algo no lugar correto, tudo ficará bem. Mas quem sabe qual é o lugar de tanta coisa? por exemplo, qual o lugar de um pendrive USB? Há um número limitado de “lugares certos” possíveis, e depois de um tempo você fica sem alternativas.

Eu culpo a explosão da tecnologia por esse problema. Vamos analisar a tralha acumulada ao meu redor agora e tentar encontra o lugar certo para um: microfone, cabos USB, mouse wireless, disco rígido externo que precisa de conserto, uma cópia do InDesign, fichários variados vazios, um fantoche de meia do Pets.com, óculos para leitura, canetas, fita adesiva, fontes de alimentação genéricas, pares de hashi, um mouse pad extra, negativos que precisam ser escaneados, cartões de memória flash, vários manuais velhos, uma dúzia de tipos de papel diferentes para impressora, uma caixa com cabos SCSI, um tubo com discos DVD-R virgens, coisas de plástico que sei lá de onde vieram, uma caixa com aqueles antigos disquetes de 3.5 polegadas, mais cabos que ninguém sabe para que servem e caixas de papelão que contém os restos de várias gavetas que foram despejadas ali.

Um dos problemas é a relativa inutilidade das coisas acumuladas. Se qualquer um destes itens tivesse algum valor, você se sentiria tentado a documentar o que fazer com ele. Por exemplo, eu raramente perco um laptop no meio da bagunça. Um laptop é algo de muito valor. Sempre sei onde ele está.

Equipamento e acessórios não são baratos, mas eles se desvalorizam e se tornam inúteis tão rápido que é estonteante. Eu tenho uma caixa com grossos e velhos cabos SCSI-I que hoje em dia só seriam úteis a um hobbysta maluco. São quase US$ 1.000 em cabos que agora não valem nada. Eu sempre fui fascinado pelo fato de que nós estamos experimentando uma indústria que tem que lançar novos produtos e livrar dos antigos tão rápido que eles se acumulam em qualquer canto. Um computador com dois anos de uso vale menos a cada dia. Nada aumenta seu valor. Se alguma coisa mantém seu valor por mais do que alguns meses, ficamos todos surpresos.

Também sempre tive esperanças de que algum guru da economia decidisse estudar isso. É similar a uma economia hiper-inflacionada onde o dinheiro vale cada vez menos a cada minuto. Neste caso são os produtos que estão passando por um processo de deflação, na maior parte por culpa da lei de Moore. Alguns podem chamar isso de depreciação, e a indústria automobilística foi onde tudo começou. Mas se a tecnologia envolve semicondutores, é hiper-depreciação. Então, em vez de comprar um item e usá-lo para sempre, como você faria com uma boa faca de cozinha ou uma espingarda de qualidade, você tem que trocar o velho pelo novo regularmente. Desta forma, o acúmulo de velharias começa.

Como somos “programados” desde crianças para não desperdiçar coisas, e já que a memória do gasto com aquele velho e agora inútil ZIP Drive ainda persiste, guardamos o drive, mesmo que ele nunca mais seja usado. Claro que há a velha desculpa: “bem, talvez eu precise dele algum dia” porque você se lembra de uma coisa ou outra que foi gravada em discos ZIP. Sim, essa é a deixa – talvez você precise daquele velho drive pra ler algum disco algum dia.

Estas coisas pertencem ao ferro-velho, mas não conseguimos nos forçar a jogá-las fora. E ela se acumula, e se acumula. Eu tenho uma sala inteira cheia de lixo como esse. É embaraçoso.

O que pode ser feito quanto a isso? Nós temos que mudar os nossos instintos básicos, nossa natureza. E precisamos encher os lixões – não nossas casas – até que alguém note o problema e uma crise nacional seja declarada. Até que isso aconteça, vou remar entre o lixo e resmungar. Não me espanta que eu esteja sempre de mal humor!

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