John C. Dvorak

John C. Dvorak
PC Magazine
O assassinato do Wi-Fi
Quarta Feira, 28 Fevereiro, 00h12

As empresas de telefonia têm tudo a ganhar e nada a parder. A mesma coisa não vale para nós.

É cada vez mais evidente que as empresas de telefonia celular irão fazer o que for possível para acabar com os serviços Wi-Fi. Afinal de contas, é uma enorme ameaça a longo prazo para eles. Nós já vimos que o rumo para o sucesso na américa, nos dias de hoje, passa pela tapeação do público e ignorância generalizada. E essas operadoras de telefonia celular não são bobas.

O sempre interessante Pew Internet & American Life Project fez uma pesquisa, e os resultados mostram que 34 % dos usuários da Internet já se conectaram através de um link Wi-Fi ou um desses populares, e caros demais, serviços via telefonia celular. Dois anos atrás, esse número era de 22%. Outro factóide da pesquisa: 19 % de todos os usuários tem Wi-Fi em casa. Este número era de 10% apenas um ano atrás. O último item digno de nota na pesquisa diz que apenas 56% das pessoas que tem PDAs capazes de acessar a Internet os usaram para isso. O mesmo vale para as pessoas que tem celulares com acesso a Internet: não mais da metade já o usaram.

Vamos analisar alguns fatos não provados, porém óbvios: uma boa porção do público que possui telefones celulares capazes de acessar a internet não tem a mínima idéia de como fazer isso. Quando perguntadas, provavelmente irão responder que seus aparelhos não possuem tal recurso, quando na verdade tem. Eles não conseguem enfiar este conceito na cabeça, já que “entrar na rede” geralmente significa sentar num teclado, olhar pra uma tela grande e digitar um monte de coisas.

E mais, muitos ouviram dizer que seus telefones podem acessar a Internet, e pensam estão na rede simplesmente ao fazer uma ligação. Essas pessoas provavelmente responderiam sim a uma pergunta sobre a Internet mesmo se seu telefone não tivesse acesso nenhum à rede. Diabos, vamos direto ao ponto. Uma boa parte do público não sabe realmente o que “sem fios” significa. Se um cabo da Comcast vai até a casa, então ela está “cabeada” e ponto.

O ponto é que não há muitas pessoas por aí que tem alguma idéia do que estão fazendo. Tudo o que você tem que fazer é se sentar no aeroporto ao lado de duas pessoas falando sobre a internet. Alguém tem um cartão EV-DO e o chama de “Wi-Fi” e imagina o quão bom vai ser quando San Francisco inteira tiver Wi-Fi e ele puder usar o cartão para ter acesso grátis em vez de ter de pagar à Sprint sempre que quiser entrar na rede. “Não seria ótimo?”. É claro, isso tem ficado ainda mais confuso desde o lançamento dos novos cartões de rede EDGE e EV-DO, que as pessoas estão usando por preços exorbitantes apenas para baixar seus e-mails em um laptop.

Corta para o meu comercial favorito. Dois palhaços estão em um banco de um parque com seus laptops. Um deles possui uma placa de celular lenta, o outro uma rápida conexão da Sprint. Um deles faz o upload de um arquivo e se despede de seu infeliz amigo, que é deixado para trás e praticamente se torna uma estátua para os pombos. Porque será que um dos palhaços deixou seu amigo? O que os dois estavam fazendo na rua com seus laptops baixando e enviando arquivos? Se eles são tão ocupados, não deveriam estar em seus escritorios, utilizando uma conexão de alta velocidade para terminar o trabalho?

Tudo isso é misteriosos demais para mim. De fato, o repentino surgimento do conceito da rede de telefonia celular como sua conexão à Internet é para mostrar ao público que já há conectividade wireless suficiente por aí e, céus, acabar com a idéia das cidades de implementar redes Wi-Fi gratuitas. Não é sobre a tecnologia. É sobre a ameaça do Wi-Fi no geral. E, em particular, me refiro ao Wi-Fi gratuito. Se você pegar uma cidade do tamanho de San Francisco e der à toda a população acesso gratuito e de alta velocidade à uma rede Wi-Fi, imagine os usos que poderiam surgir. Isso inclui chamadas VoIP aos montes. Cai fora celular! Olá telefone Wi-Fi!

Não é coindidência que esses comerciais de EV-DO e outros cartões de telefonia celular tenham aparecido ao mesmo tempo em que o mercado foi inundado com um monte de telefones Wi-Fi e híbridos Wi-Fi/Celular. O Wi-Fi deve morrer! As empresas de telefonia vão fazer tudo o que for possível para arrebentar o padrão 802.11, especialmente o 802.11n, que eventualmente pode chegar a velocidades de 600 megabits por segundo.

Olhe só. Conexões Wi-Fi atualmente estão na faixa dos 54 Mbps, e isso já há quatro anos. Chegar aos 100 Mbps é fácil graças a pre-n e outros truques. As conexões via celular vão de 384 Kbps com EDGE a talvez 2 Mbps com EV-DO, se você tiver sorte. Essas são velocidades com as quais estávamos brincando dez anos atrás mas agora, por algum motivo, são um tipo de revolução. Sim, são revolucionárias, considerando a patética tecnologia GPRS de 115 Kbps das companhias telefônicas.

Por essas velocidades – que são limitadas, veja bem, de forma que você não pode realmente usar o que comprou – você paga US$ 50, US$ 60, talvez US$ 70 por mês. E por essa grana você pode enviar arquivos sentado num banco de praça talvez umas duas vezes por semana, ou uma vez por mês no aeroporto. Será que o público é tão estúpido que, dada a possibilidade de escolha entre este tipo de serviço e uma rede Wi-Fi municipal gratuita, escolheria o serviço mais lento e caro em vez do mais rápido e gratuito?

Provavelmente não quando os extremos são tão amplos, mas você pode ter certeza que os políticos locais irão ceder, e nós poderemos esquecer o Wi-Fi municipal gratuito e os telefones Skype. O gratuito é, por definição, comunista! E prejudica os empreendedores!

Quem precisa de progresso quando se tem lucro?

 

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