John C. Dvorak

John C. Dvorak
PC Magazine
A Microsoft vai começar uma guerra entre distros do Linux?
Quarta Feira, 08 Novembro, 12h21

Com um anúncio surpreendente, Steve Balmer da Microsoft parece ter feito um acordo com a Novell e o pessoal da SUSE Linux. Aparentemente, o objetivo é aumentar a interoperabilidade com o Windows e, talvez, até portar alguns aplicativos para a plataforma. O que está acontecendo? Faz algum sentido a Microsoft dar esse grande passo em direção ao Linux? Afinal, era o próprio Ballmer que costumava demonizar o sistema.

Eu acho que algo está acontecendo e isso tem a ver com o anúncio de Larry Ellison no Oracle OpenWorld, que a empresa iria vender serviços de suporte para o Red Hat Linux. Eu suspeito que esses grandes players vão embarcar em várias distribuições Linux e começar uma guerra de softwares.

A questão é, a Microsoft está bem atrasada nessa questão. O que ela estava esperando? Estava esperando o final das discussões legais.

A Microsoft tinha medo de trabalhar com Linux por causa das complicações com licenças e a possibilidade de que um movimento em falso deixaria seus produtos cair em domínio público no mínimo, ou sujeitados ao GPL. A GPL General Public License é uma coisa que atrapalha muito, principalmente se você criar algo especial e único e quiser ganhar dinheiro com isso.

Vários players do mercado tentam evitar problemas com a GPL e, ao mesmo tempo, usar o Linux em aplicativos proprietários. Esse é o conceito de um calço. Qualquer um que tenha feito algo mecânico conhece o que é um calço. Normalmente é algo encaixado em um espaço para deixá-lo firme, como um pedaço de cartolina embaixo de uma perna de mesa bamba.

Com software, a idéia é criar algum tipo de código que é encaixado no Linux e cujo único objetivo é permitir que algum código proprietário rode sob o Linux sem na verdade tocá-lo de forma alguma, assim esse código não estaria sujeito à GPL. Isso inclui mecanismos que alteram o funcionamento interno do Linux sem precisar publicar o código e as mudanças como open-source, ou permitir que sejam usados por outros, como é exigência da GPL.

Todo mundo no mercado tenta enganar a GPL há anos e essa idéia de calço parece que tem chances de funcionar. A Microsoft sabe disso, a Oracle sabe disso, todo mundo sabe disso.

Com um calço, a Microsoft poderia, possivelmente, fazer o seguinte: pegar uma distro Linux, digamos que seja a SUSE; depois criar um calço que converse com o kernel da SUSE. Publicar o código-fonte deste calço e o que ele faz. Pegar um otimizador proprietário da Microsoft que permite que vários aplicativos rodem perfeitamente sobre o Linux com modificações no core do Linux mas que, na verdade, rodem sobre o calço, não sobre o Linux. As modificações no Linux seriam feitas pelo calço em nome dos aplicativos da Microsoft de forma que o mecanismo não precisaria ser revelado como open-source. Eu sei que isso parece complicado para quem quer criar middleware. Mas o plano é esse.

Essa situação é uma das razões prováveis pela qual Richard Stallman, o guru do free software que acha que ninguém deveria ganhar dinheiro com a venda de softwares, só com serviços de suporte, esteja querendo mudar a GPL. Ele quer que a licença reflita melhor sua ideologia sobre o free software, afastando-se do movimento open source, onde idéias como essa do calço, podem coexistir. O excelente ensaio de Stallman em 2001, o The GNU GPL and the American Way, descreve a situação desde o começo. Você pode ver para onde ele queria ir em 2001.

Então, o Linux será em algum momento crackeado e explorado pelos grandes players de uma forma que ninguém queria? Pode apostar.

 

 

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