Carlos Alberto

Carlos Alberto
Yahoo! Tecnologia
Desabafo de uma esposa
Quarta Feira, 19 Julho, 16h11
É no quartinho de empregada que fica o nosso computador da família, mas a tela do monitor não é visível da porta do pequeno aposento. Já passa da meia-noite, as crianças já dormiram e eu me preparo para ir deitar. Mas meu marido ainda tem coisas a fazer na máquina, trabalho acumulado, ele diz. Eu chego nele, dengosa, dou-lhe um beijinho carinhoso, peço que não se demore e que venha logo para a cama. Eu espero, mas o sono é mais forte e eu durmo.

Andei fuçando em nosso PC e acredito que meu maridão não tem vídeo-amantes online, não freqüenta salas picantes de chat e não troca tórridas mensagens eletrônicas com outras mulheres. Mas basta saber que eu peguei no sono e ele começa sua rotina noturna e solitária: catalogar e distribuir pornografia digital. Ele pensa que eu não sei o que se passa.

Andei pesquisando e vi que não há consenso quanto ao percentual do tráfego mundial da internet tomado por material pornográfico. O site do The Guardian, por exemplo, já mencionou que este número chega aos 35%. Em outro estudo afirma-se que mais da metade do tráfego total da rede se deve a transferência de material dessa natureza ou, senão, a solicitações para obtenção deste material, seja de forma gratuita, seja mediante pagamento.

Fazendo um retrospecto, há não muito tempo, os homens, garotos ou adolescentes precisavam de uma certa dose de coragem para pôr suas mãos em material pornográfico. O cara tinha que ir fisicamente a uma banca de jornal ou a uma livraria e pedir no balcão por uma revista ou por um vídeo pornô. Se fosse menor de idade, nem chegava perto: pedia a algum amigo ou conhecido mais velho que fosse em seu lugar. Em cidade pequena, o sufoco era ainda maior, pois em lugares assim todo mundo se conhece e a vergonha era sempre um fator de peso. E acho que era um fator que represava um pouco a ânsia por esse tipo de conteúdo.

Com a internet, no entanto, a coisa toda mudou de figura. O próprio contexto do uso de pornografia se alterou drasticamente. Qualquer lar plugado à rede, como o meu, virtualmente não tem mais paredes. Nem nossos filhos estão a salvo, mesmo com estes softwares bloqueadores de sites sujos, que estão longe de serem infalíveis. Assim sendo, atualmente, quase qualquer pessoa, de qualquer idade, pode acessar a internet com uns poucos cliques no mouse e ser inundado por pornografia de todo tipo.

Eu uso pouco o computador, apenas leio meu e-mail e mal navego na rede. Mas meu marido é um usuário pesado, recebe não-sei-quantas mensagens por dia, e muitas delas são spam pornográfico. Eu já vi, sem que ele percebesse. Talvez tentando me iludir, ele tenta filtrar esse lixo, ou diz que tenta. Mas os remetentes estão cada vez mais espertos, usando os mais variados truques para furar as barreiras. Ao que parece, está se travando uma verdadeira guerra entre os que enviam esse tipo de mensagem e os que desejam bloqueá-las. E, pelo jeito, os bloqueadores estão perdendo a parada. E, indiretamente, eu também estou.

Essa coisa de a pornografia estar cada vez mais acessível pela rede, ao clique de um botão, está produzindo um inevitável efeito: o consumo e o tráfego de material pornô está aumentando. Nem falo da execrável pornografia infantil, mas sim da pornografia convencional, a "careta", digamos. Trata-se de uma indústria que movimenta quantias fantásticas no mundo inteiro e, obviamente, se ainda tem gente enviando spam pornô até hoje é porque isso deve, de algum modo, dar dinheiro.

Algumas pessoas devem considerar pornografia on-line uma questão de preferência pessoal. Outras decerto, especialmente lá nos Estados Unidos, levantam objeções contra qualquer tentativa de se impor regras ao tráfego deste tipo de material, alegando violação à liberdade de expressão. Há também quem pense que existem outras questões muito mais importantes a merecer nossa atenção.

O que essas pessoas se esquecem é que, em muitos casos, a pornografia é um abuso das pessoas que nela aparecem. Tudo bem, muitas delas são pagas para isso, mas continua sendo uma exposição de suas intimidades. Fora isso, esse tipo de material promove comportamentos sexuais aberrantes. Crianças e jovens expostos cedo demais a imagens dessa natureza perdem bastante do sentido real das relações íntimas. Mesmo os adultos não estão imunes a este efeito.

No caso da pornografia via internet há ainda um sério agravante: é algo que vicia, especialmente pela facilidade com que se obtém tal conteúdo. Meu marido, sem saber que eu sei de tudo, assina várias mailing lists gratuitas e se corresponde com umas dezenas de aficionados como ele, recebendo diariamente centenas de fotos mostrando as mais criativas variações do ato sexual. E, no turbilhão do vício, ele se esforça em enviar a estas mesmas listas e aos seus fornecedores todo material supostamente inédito que lhe chega à caixa de entrada.

Sou tímida e tenho muita vergonha de chegar para ele na lata e dizer o que realmente sinto a respeito, mas não estou agüentando mais. Será que ele tem idéia do dano que está causando ao nosso relacionamento? Quantos casais viram seus casamentos balançar diante da descoberta pelas esposas dos porno-segredos de seus maridos?

Imagino que cada esposa que cai na real, como eu caí há algumas semanas, vai perguntar-se o mesmo o que perguntei a mim. O que há de errado comigo para ele sentir necessidade de mergulhar nesse vício? Será que não o satisfaço? E pior, como posso competir com aquelas modelos pornô, turbinadas, saradas e sem limites na cama? Elas são perfeitas, eu não sou. Sim, eu malho, faço dieta, me cuido, sou vaidosa e sei que estou bonita, o espelho não engana. Mas é uma disputa injusta, e eu sei que vou sempre sair perdendo.

Mas há outras perguntas que me batem constantemente. Há quanto tempo meu marido está nessa? E, se ele está escondendo isso de mim, que outras coisas poderá também estar ocultando? E agora, como poderei confiar nele com relação a qualquer coisa?

E nossos filhos? Será que eles já descobriram esse lixo no nosso computador? Como poderemos dizer a eles que isso tudo é errado se o próprio pai se meteu nesse universo sombrio?

Estou revoltada. Ele se delicia com imagens de computador em vez de me dar atenção? Ok, está certo. Vamos brincar assim. Vai demorar muito, muito mesmo, até que eu deseje novamente alguma coisa com ele.

Mas, do fundo do meu coração, se pudesse pedir um único presente a ele, com toda sinceridade, pediria que ele abrisse mão de toda pornografia que ele guarda naquele computador. Aquilo é um câncer, está me corroendo, me secando, e não vejo um final feliz nisso tudo.
---

Quer comentar o tema desta coluna? Assine o grupo tecnocat, é grátis, e está fase experimental. Quanto ao fictício desabafo da esposa, devo agradecimentos a David Gushee que, com seus trabalhos, inspirou-me a escrevê-lo.
Últimas colunas
Janeiro 2007

Romances digitais (Qua, 17 Jan)

Setembro 2006
Julho 2006

Desabafo de uma esposa (Qua, 19 Jul)

Abril 2006
Março 2006
As opiniões aqui expressas não representam a opinião da Yahoo! Brasil Internet Ltda., de seus diretores,
funcionários, prepostos ou empresas afiliadas e são de responsabilidade integral de seus idealizadores.

 

Copyright © 2007 Yahoo! do Brasil Internet Ltda. Todos os direitos reservados.
Política de Privacidade -Termos de Serviço - Direitos Autorais - Ajuda