Carlos Alberto

Carlos Alberto
Yahoo! Tecnologia
Sua longa estrada tem posto de gasolina?
Terça Feira, 25 Abril, 16h06
Acabo de descobrir que não confio no futuro, sim no meu futuro. Mas, um momento. Chego assim contando logo para você na lata o final da história? Ora, é claro, você não vai entender nada. Então vou fazer o seguinte. Vou voltar atrás e começar do princípio, se me permite.

O que acontece é que eu sou um armazenador, sim, guardo coisas. É algo meio compulsivo. Não chega a ser doentio, mas me incomoda, pois para guardar coisas preciso de espaço. Feira do livro? Sebo? É comigo mesmo. Leio muito menos do que gostaria. Não tenho tempo, alego. Mas compro livros. Ah, isso compro. Se forem daqueles baratinhos então, logo penso: que bom negócio! Meu plano é lê-los quando ficar velhinho. E, cá com meus botões, fico achando que é até bom sinal. Indica que acredito que vá viver ainda muito e que mais tarde terei longas tardes e noites, em que desfrutarei dos tantos livros que venho acumulando.

Quando comecei a me meter com informática deu-se o mesmo. Primeiramente com disquetes. Montei meu pequeno arquivinho pessoal, com cerca de 30 caixas de disquetes, dez em cada caixa. Primeiro foram os disquetes grandes, de 5¼ polegadas. Depois, como a mídia evoluiu diminuindo de tamanho, comecei a coleção de disquetes de 3½ polegadas, outras trinta e tantas caixas. Eram programas, textos e imagens que, imaginava eu, um dia iria ter tempo de rodar, ler e ver a todos. Quanto à organização, eram coleções meticulosamente catalogadas. Encontrava qualquer arquivo em questão de segundos, graças a um programinha simples de busca que eu mesmo escrevi utilizando a linguagem 'awk' para processamento de textos.

Surgiu então na minha vida a internet e, com ela, o fabuloso 'ftp', a ferramenta de transferência de arquivos, que permitia, conhecendo os lugares certos, baixar uma quantidade assombrosa de conteúdo digital de todo tipo. O contato com o gigantesco acervo de informações que a internet oferecia gratuitamente quase me deu um treco. Meu impulso era baixar tudo, absolutamente tudo que me interessasse, pois um dia - oh a velha mania! - teria tempo para pesquisar todo o material.

Para guardar estes arquivos, pulei dos disquetes para os zip drives, com capacidade de 100 MB cada um. O terrível fenômeno do clique-da-morte dos drives Iomega acelerou minha transição para os CD-R's, e continuei acumulando trecos digitais. Com os softwares peer-to-peer, minha mania se agravou. MP3? Baixei gigas e gigas deles nos Audiogalaxies, KaZaA's, WinMX e eMules da vida. Imagens, vídeos, ebooks e audiobooks? Outros tantos gigas.

Migrei para DVD-R e depois, já sem espaço e sem paciência para tanta cópia, comprei dois HD's de 300 GB e continuava enchendo-os de arquivos. Até há pouco, meu eMule ficava sempre funcionando, continuamente fazendo downloads gigantescos, máquina ligada direto, dia e noite, entulhando sem parar meus discões novos com arquivos que considerava essenciais e que, algum dia no futuro, seriam meu recreio.

Analisando as pastas destes discos, encontrei diretórios onde estão guardadas até hoje as imagens digitais dos velhos disquetes que colecionei, quase todos eles, exceto os que foram vencidos pelo mofo ou pelos bad-blocks. Estão também nesses HD's parrudões as imagens dos CD's e os DVD's que fui gravando ao longo do tempo, todos eles. Mas algo me dizia, lá no fundo, que nunca seria capaz de examinar tudo que guardei entre livros e arquivos digitais.

Tempo presente agora. Há coisa de meia-hora, ligou-me meu velho amigo Silva Costa, artista plástico de setenta e paulada anos, que virou tipo meu mestre, dadas sua bagagem de vida e sua inesgotável generosidade em me contar passagens sugestivas de sua rica existência.

Ligou-me para saber coisas do eMule, mais especificamente como acelerá-lo ao máximo, aproveitando inteiramente o 1 Mbps que ele tem com a banda larga do Velox. Mas no meio do papo, para minha sorte, levantei essa questão do porque guardar tanto arquivo. Quando teríamos tempo de examinar tudo aquilo?

Foi então que ele me trouxe a luz. Começou confessando ser igual a mim e me deu vários exemplos disso, evocando as tralhas que guarda em casa e mesmo os arquivos digitais que ele também vai baixando rotineiramente da internet.

Psicanalisado, centrado, auto-refletido e cabeça-boa, mestre Silva Costa me contou sobre sua conclusão acerca da mania que compartilhamos. É que não acreditamos no futuro. Sim, ele estará lá adiante em nossas vidas. Mas por algum motivo, acreditamos que quando chegarmos lá nele, não seremos mais capazes de encontrar as coisas que conseguimos achar hoje. Ele fez para mim o paralelo com o motorista de um automóvel que descobre que tem diante de si um longo trecho de estrada em que não há gasolina, nem água, nem comida. Então o que faz? Enche o carro de coisas. Com isso, poderá transpor com segurança esse trecho deserto e sem recursos.

Olho aqui para minha estante cheia de livros, para o meu armário cheio de disquetes, CD's e DVD's. Olho para meus dois discões Maxtor novos, cheios de arquivos 'importantíssimos' - emails recebidos, devidamente arquivados, desde o primeiro, mas que talvez nunca lerei; ebooks que provavelmente nunca exibirei nem na minha tela do desktop nem no meu Palm; fotos e vídeos que talvez jamais terei tempo de tocar. Isso me incomoda. Sinto que preciso mudar algo aqui dentro de mim. E vou trabalhar nisso, pode crer que vou. Quero viajar mais leve. Quem não carrega tanto peso é mais ágil para aproveitar melhor o caminho.


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