Ao contrário do que se podia imaginar, o processo quase-universal de digitalização de informações, em vez de aumentar a segurança de dados, acabou diminuindo-a em alguns casos. Nos tempos em que as informações ficavam armazenadas em papel, era muito mais difícil roubá-las, ter acesso a elas ou utilizá-las indevidamente. É claro que hoje em dia existem ferramentas tecnológicas sofisticadíssimas que, a princípio, cercariam dados importantes e sigilosos de armaduras digitais robustas e virtualmente impenetráveis.
O que agrava o quadro atual é o fato de ser tão portátil a informação digital. Nos tempos dos papéis, das fichas ou mesmo das fitas magnéticas de 9 trilhas, sair de um prédio com o equivalente a dez Terabytes de dados daria muito na vista. Já atualmente, uma maleta média cheia de discos rígidos de alta capacidade seria o suficiente para transportar sem grande alarde esta quantidade considerável de informações.
Existe ainda um outro probleminha, este bem mais sério: as pessoas. Como se sabe, por trás de qualquer banco de dados, de qualquer massa de informações digitais protegidas sob sigilo máximo, existem pessoas ou instituições que mandam, que têm o poder de acessar todos esses dados tão valiosos. Há também aqueles que detêm cargos técnicos e que, apesar de não mandarem tanto, podem pôr o dedo onde não devem e, muitas vezes, sem deixar rastros.
Em suma, são as pessoas o elo fraco da cadeia de proteção. Não adianta criptografia, salas-cofre, segurança armada, circuito fechado de TV, sensores infravermelho, códigos de acesso, senhas, nem biometria. Se o manda-chuva precisa de determinada informação, então dará um jeitinho de obtê-la e dela fazer uso como bem lhe aprouver, de preferência apagando quaisquer evidências de que tal mau-uso ocorreu.
Vale lembrar, porém, que praticar crimes perfeitos é uma arte que poucos dominam. No mundo digital também vale esta assertiva. O resultado é que, para alegria do mocinho e desgraça do bandido, muitos são os casos em que roubos de informações por parte dos poderosos acabam sendo descobertos, pois os executores, sem querer, deixam o rabo de fora, permitindo o rastreamento e, em geral, causando grande revolta geral por ocasião da descoberta dos culpados.
Uma coisa é certa. Quando existe uma quantidade grande demais de informações digitais sigiliosas armazenadas num mesmo sistema, então o risco de estes dados serem mal utilizados sempre existirá. Aqui no Brasil tivemos o recente caso da quebra indevida do sigilo bancário do caseiro Francelino Costa, comandada por gente grande, muito grande, talvez até grande demais.
Nos Estados Unidos, um caso também recente se deu com a gigante das telecomunicações, a AT&T. Num dia típico, esta empresa é responsável por cerca de 300 milhões de chamadas telefônicas de voz. Ao longo de um ano, são transmitidos por ela mais de 18 bilhões de minutos de chamadas internacionais e trafegam mais de 4.600 Terabytes de informações pelo backbone da empresa, cerca de 200 vezes a quantidade total de dados contidos em todos os livros da Biblioteca do Congresso dos EUA. É disparado o maior provedor de telecomunicações dos Estados Unidos, um dos maiores do mundo, e recentemente viu-se no centro de um escândalo que está estourando por lá.
Um grande esquema de vigilância secreta conduzido pelo governo dos EUA veio a público em dezembro de 2005, mas só agora apareceu a responsável técnica pela operação. De acordo com a Electronic Frontier Foundation, em 2003 a AT&T cooperou com a Agência Nacional de Segurança (NSA) para instalar equipamentos de vigilância na filial da companhia em San Francisco.
A EFF tem em seu poder evidências que comprovam a acusação. São depoimentos juramentados de um técnico aposentado da AT&T e diversos documentos internos da empresa que demonstram que foi concedido ao governo americano acesso irrestrito aos mais de 300 Terabytes de informações do "Daytona", o banco de dados da companhia que reúne todas as informações sobre chamadas telefônicas realizadas, uma das maiores massas de informações deste tipo existentes no mundo. Esta quantidade imensa de informações foi desviada para as mãos da NSA como um grande pacotão, sem mandado judicial, contrariando a legislação federal americana. Numa flagrante afronta contra a privacidade dos clientes da empresa, o ato de repassar secreta e docilmente estes dados para a agência governamental é também uma ameaça aos princípios estampados na Constituição americana.
Lá nos Estados Unidos, a EFF abriu um processo contra o governo. Aqui no Brasil, caiu o Ministro Palocci e iniciou-se uma investigação que, em ano eleitoral, teme-se que termine, como tantas outras, em pizza.
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