Carlos Alberto

Carlos Alberto
Yahoo! Tecnologia
Blogs, Orkuts e lavagens cerebrais
Sexta Feira, 24 Março, 15h55
Há coisa de duas semanas, num vôo internacional longo, pus-me a ler uma matéria no jornal USA Today onde se abordava o caso de um estudante secundário americano que postou na web fotos de si mesmo vestido como drag queen. Ingênuo, talvez quase abobado, imaginava ele que apenas seus amigos veriam as tais imagens que tinha publicado no Facebook, um site socializante voltado à turma colegial. O estudante acabou sendo chamado pela diretoria de sua escola, um colégio cristão, e foi sumariamente expulso. O código de comportamento da instituição, aderente aos rígidos padrões das escolas religiosas, não contemplava os agitos em que o rapaz se metia. Os relatos por ele publicados na web contando sobre suas crises com os namorados e sobre suas visitas aos clubes gays da região foram a gota d'água para que se defenestrasse o mancebo.

A mania de escancarar suas vidas em blogs e sites como Facebook e MySpace tem custado um alto preço para muitos adolescentes que acabam sendo vítimas do que eles mesmos escreveram a seu próprio respeito. Tal fato vem ocorrendo em vários países e já faz com que moços e moças pensem duas vezes antes de blogar, temerosos das conseqüências que poderá ter o gesto de franquear a qualquer internauta o acesso às suas intimidades.

Junte-se a isso a facilidade cada vez maior em se tirar fotos com celulares e postá-las imediatamente em fotoblogs e teremos garotões menores de idade ostentando garrafas de birita no alto da night, patricinhas doidonas com pouca roupa no meio da gandaia, rapaziada detonando maconha e até moleques portando armas de fogo. Nos textos que produzem alguns destes jovens em seus diários digitais acabam escrevendo cobras e lagartos de colegas, professores, desafetos, técnicos esportivos, diretores e até de seus pais fascistas, irmãos tiranos e familiares malas-sem-alça. Não raro se vê também comentários anti-semítas, ameaças de morte, manifestações de ira antiárabe e exaltações neo-nazistas. Só que para os adultos estes sites são locais onde os jovens põem em risco suas reputações, seus futuros e até, em alguns casos, sua segurança.

A ingenuidade destes adolescentes é tamanha pode parecer quase cômica aos mais velhos e calejados. No entanto, mesmo internautas macróbios, macacos velhos nos meandros da rede, submetem-se a encrencas potencialmente parecidas quando entregam seus emails pessoais a giga-reposítórios como Gmail e congêneres. Listas de contatos, agendas pessoais, fotos privadas, tudo isso armazenado em gigantescos servidores à distância -- aí está um provável motivo de aborrecimento futuro para todos os que mansamente se dobraram à ilusória facilidade de ter estas informações à mão, bastando apenas se logar em qualquer cibercafé da vida. As próprias máquinas de busca, que antes eram ferramentas poderosas mas inócuas, e que hoje em dia já associam univocamente uma busca que se faz à pessoa que a está realizando, poderão mais adiante trair o acordo de privacidade celebrado com quem nelas confiou, ou seja, nós usuários.

Pulando da primeira página, onde o assunto em pauta era matéria de capa, para as páginas internas onde havia a continuação do artigo, terminei de ler o texto com a plena consciência do quanto a internet e seus tentáculos estão promovendo mudanças de impacto nas camadas mais abastadas da pirâmide social. Obviamente, as comunidades carentes, espalhadas pelo mundo em muito maior número do que a coletividade endinheirada, pouco ou quase nada são afetadas por estes adventos tecnológicos e suas implicações sociais, necessitadas que ainda estão dos elementos básicos de sobrevivência diária e digna.

Agora vem a parte revoltante, ligada ao tema que acabo de abordar apenas pela diagramação da página que eu lia naquela apertadissima poltrona da classe econômica. É que, por não ter o supracitado artigo ocupado a página toda, algum editor do mencionado periódico achou por bem aproveitar o espaço restante para publicar uma pequena matéria sobre assunto correlato, o Orkut.

O texto, à página 4A, revela que simpatizantes da Al-Qaeda, a tão propalada rede mundial de terrorismo, estão se utilizando do Orkut para obter suporte ainda maior ao líder Osama bin Laden, através da divulgação de vídeos e de links promovendo o terrorismo, na tentativa de recrutar novos adeptos ocidentais não-árabe-parlantes para integrar suas fileiras. Grande partes destas páginas web são escritas em árabe e exigem que interessados não afeitos ao idioma procurem pessoalmente alguém ligado ao site de modo a poder ter acesso ao conteúdo.

Segundo recente relatório da entidade Repórteres Sem Fronteiras, o Irã foi o país do Oriente Médio em que a internet mais cresceu desde o ano 2000. Quem se aproveita disso são os militantes antiamericanos. No Orkut, existem pra lá de 50 comunidades exaltando, devotando-se ou endeusando Osama bin Laden, a Al-Qaeda ou a Jihad, a dita guerra santa dos povos islamitas contra os poderes cristãos e judeus do Ocidente.

O texto do USA Today prossegue descrevendo todas as implicações antiamericanistas do conteúdo destas comunidades e o faz de forma até razoavelmente aceitável. Só que, em determinado instante, pisaram no meu calo.

Como se sabe, o Brasil está lentamente sendo cercado por tropas americanas (links 1, 2, 3 e 4), num movimento silencioso, mal divulgado pela mídia e muito bem orquestrado, talvez com objetivos mais ou menos sinistros a serem atingidos num futuro a médio ou longo prazo.

Pois bem, numa flagrante forçação de barra, possivelmente com a intenção de novamente associar indevidamente o Brasil a movimentos e iniciativas terroristas pseudo-islâmicas, o veículo publicou que "o Orkut, que alega ter 13 milhões de membros, é particularmente popular no estrangeiro, em especial no Irã e no Brasil..."

Um instantinho aí, gente boa. O Orkut é avassaladoramente dominado pelo Brasil, com 72,69% dos assinantes. Em seguida vêm os EUA (10,93%), a Índia (2,68%) e só depois o Irã (2,40%). Vá lá que se diga que o tráfego iraniano no Orkut tenha diminuído desde janeiro de 2006 em função de o governo iraniano ter banido o site, mas mesmo assim mencionar "Irã e Brasil" nesta ordem, neste grau de equiparação e neste contexto específico é algo totalmente descabido.

Bem, não há como combater estas lentas campanhas de lavagem cerebral conduzidas em bloco pelos grandes conglomerados de mídia. à guisa de contra-exemplo, nunca me esquecerei do estado de nervos em que me vi ao visitar o Egito em 1992 com minha primeira esposa, atormentados que estávamos pela firme noção, quase certeza, de que todo muçulmano dos países árabes seria invariavelmente um facínora sempre à espreita para atacar, ludibriar e, porque não?, torturar e assassinar as gentes do mundo cristão ocidental. Tudo isso, seguramente, fruto de dezenas de filmes, seriados, livros e revistas de cunho tendencioso atendendo a sei-lá-quantos nem quais interesses escusos americanóides ou, melhor dizendo, primeiro-mundóides.

Pois bem, para minha surpresa, percorri dirigindo em estradas brabas o Egito de Norte a Sul num Fiat molambento alugado e, sem sombra de dúvida, nunca tinha visto antes um povo tão simpático, prestativo, risonho, hospitaleiro e do bem. Ou fui eu que dei sorte, ou então a história estava um pouco mal contada.

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