Carlos Alberto

Carlos Alberto
Yahoo! Tecnologia
Romances digitais
Quarta Feira, 17 Janeiro, 15h41

Sobre romances via internet, a gente ouve muito falar e até acha que pode ser verdade. Quem não conhece alguém com uma estória de sucesso, um amor virtual que virou real?


Mas só entendemos direito como funciona o processo quando acontece com a gente mesmo, ou com alguém bem próximo e de confiança. Um grande amigo contou-me um caso completo e recente que se deu com ele, de ponta a ponta, na primeira pessoa do singular.

É gente minha, um camarada que conheço há anos e em quem confio cegamente. Vou relatar-lhes o ocorrido como se fosse ele mesmo contando:

"Comecei há alguns meses a participar de uma mailing list que tratava de assuntos filosóficos e metafísicos. Gente inteligente e de boa cabeça freqüentava o pedaço e não demorei muito para encontrar uma elite ainda mais interessante, subgrupo dos brilhantes dentro daquela comunidade.


Neste conjunto de gente especial, certa pessoa se destacava, uma mulher que escrevia com charme diferenciado, sensível, sutil, sempre bem articulada e defendendo habilmente seus pontos de vista. Fiz um contato direto com ela via email e, após trocarmos algumas mensagens, sentimos simpatia imediata e recíproca.

Veja bem, não se tratava de chat, mas sim do bom, velho e lento email. Passamos a trocar mais e mais mensagens ponto-a-ponto, ou seja, fora da mailing list. Primeiramente eram espaçadas, mas com o tempo foram se tornando mais freqüentes, profundas e pessoais.

A quantidade de mensagens diárias entre nós tornava óbvio que passava a haver um interesse adicional de um pelo outro, obviamente nada ligado às questões metafísicas.

Houve então a esperada troca de fotografias via JPGs atachados ao email. Peguei uma foto minha recente e mandei. Recebi a dela e fiquei abalado: era uma lindeza de mulher.

Depois disso ela fez questão de descrever a si mesma em detalhes que não apareciam na foto, o que me ajudou ainda mais a construir uma bela imagem da minha misteriosa interlocutora. Já sentia frio na barriga quando me conectava à rede. E quando chegava mensagem dela, eu dava um daqueles sorrisos que ofuscariam qualquer criatura que estivesse dentro do quartinho do micro.

O primeiro telefonema foi uma glória. Adoramos nossas vozes e passamos horas pendurados na linha, conversando torrencialmente, caudalosamente. O desejo foi crescendo de parte a parte e, por sorte, muitas vezes quando a gente fica fissurado por uma coisa, ela acaba acontecendo. E eu estava louco para encontrá-la.

E ela também a mim. Fui destacado pela firma para fazer um contato comercial no Paraná, pertinho da cidade onde ela mora, Maringá. Era a chance de conhecê-la ao vivo. Avisei-a desse presente do destino e começamos a fazer os planos.

Ficamos um mês e meio em contato frenético via email e, com a crescente intimidade, nossas mensagens foram ficando deliciosamente provocantes, invasivas e picantes. Estávamos literalmente famintos um pelo outro.

Quando faltava pouco para o grande dia, ela me escreveu dizendo que havia conseguido três dias de folga no trabalho, emendando no final de semana. Movi montanhas e consegui junto ao meu chefe os mesmos três dias de licença, graças a umas férias vencidas que tinha a meu favor.

Depois de resolver minhas pendências de trabalho, peguei o ônibus para Maringá e lá estava ela, me esperando na Rodoviária. Meu coração quase pulou para fora com o impacto do encontro. Ela era umas dez vezes mais linda do que eu imaginava.

Ambos tímidos e abalados pela forte emoção, presenteamo-nos de início apenas com um rápido abraço meio às pressas, pois o carro dela estava mal estacionado. Seu perfume, sua voz, a forma com que se movia, tudo me encantava. Achava que estava em outra dimensão. Ah, santa internet, que tesouro fabuloso eu tinha encontrado. E estava ali na minha frente, toda minha.

Mas foi aí que aconteceu o inesperado. Passaram-se os minutos iniciais de deslumbramento e começamos a nos aproximar fisicamente. Sim, o primeiro beijo. Que surpresa! Éramos lâmpadas apagadas um para o outro. Não rolou energia nenhuma de pele. Ficou claríssimo para nós dois. Ficamos os dois atônitos, sem palavras, com aquele gosto de poeira dentro da boca. Mal nos olhamos em seguida, pois entendemos na hora o que estava se passando.

Decepcionados e tristes com a infeliz descoberta, não restou clima nem para uma boa risada. Tomamos um café em silêncio e nos despedimos com aqueles dois obrigatórios beijinhos de toque de bochecha. Um aceno ao longe e nunca mais nos vimos, nem nos escrevemos."

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