Bob Wollheim

Bob Wollheim
WNews
A hora de step down
Quarta Feira, 30 Abril, 16h23

Outro dia papeando com amigos, falávamos de como os americanos são desprendidos e, em sendo assim, agilizam muitas coisas que deveriam também ser agilizadas por nós e não são. Nosso case era o Google (assim como deve ser pra muita gente) e falávamos de como o Sergei e o Larry perceberam mais ou menos cedo que tinham que sair um pouco do dia-a-dia da operação e contrataram o Eric Schmidt, o que por lá é chamado de grey hair (cabelos grisalhos) para tocar a empresa. A fórmula vem dando muito certo e é um destes exemplos de desprendimento.

Como tenho uma mente dual que enxerga – ou procura enxergar – sempre os dois lados das coisas, o preto e o branco, o bom e o ruim, o ying e o yang... achei importante provocar meus amigos com algumas coisas que, penso eu, vale a pena colocar aqui neste espaço:

1. De fato os americanos me parecem mais desprendidos (minha coluna há algumas semana sobre o filme do último dia de trabalho do Bill Gates ressaltava justamente isso), mas é importante lembrar que eles têm um mercado muito maior, uma indústria de VC muito mais atuante e que, em muitos casos, a gente por aqui adoraria ter um grey hair pra tocar o dia-a-dia da nossa empresa, mas simplesmente não tem grana pra pagar!

2. Se os empreendedores americanos são mais desprendidos, passando mais facilmente a bola para um grey hair (que muitas vezes não tem um fio sequer de cabelo grisalho, mas que é alguém forte em gestão), devemos lembrar também que assim como os empreendedores brasileiros são mais presos e amarrados a seus negócios, existem também bem menos grey hairs abertos o suficiente para trabalhar com empreendedores malucos que criaram o negócio aqui abaixo do Equador. Ou você imagina que o Eric do Google toque a empresa sem absorver a maluquice positiva dos fundadores? Não é o que me parece.

3. Outra coisa que penso influenciar bastante essa questão é o fato - que vem mudando e melhorando - de que empreender no Brasil ainda é visto como coisa pra louco, desempregado ou desajustado. Como coloquei acima, está mudando, mas ainda é muito assim. Somos os patinhos feios e ainda tem muita gente que acha mesmo que todo o empresário é pilantra, rouba alguém ou rouba todo mundo.

Com toda essa carga imagética e imaginária que nos atribuem, fico imaginando o que pensa um executivo - grey hair - quando convidado para se juntar a uma start-up para ajudar na gestão da coisa? “Coisa de maluco, será que vou arriscar meu nome e minha reputação com esse empreendedor alucinado?”. Ou você acha que o Larry, o Sergei, o Jerry, o Gates, o Jobs, etc, etc, são empreendedores calminhos, quietinhos, organizadinhos? Não são, são tão - ou mais - malucos do que os nós, mas empreender nos EUA é visto como coisa bacana, modelo de sucesso e para um executivo se juntar a um Google é bem mais fácil do que por aqui, não é?

4. Por fim, penso que as dificuldades de empreender no Brasil tornam - em muitos casos, não uma regra, claro - o empreendedor brasileiro mais apegado a seu negócio. Pela quase completa falta de apoio e incentivo, nossa luta é mais solitária e pessoal. Vou tentar explicar melhor com um exemplo: quando temos investidores angel no negócio nos habituamos desde muito cedo a compartilhar as coisas da empresa, a contar com o apoio de alguém que tem dinheiro para turbinar nossa capacidade de execução e que, portanto, também participa do negócio.

Quando, por outro lado, somos sozinhos, o que está na empresa é nosso dinheiro pessoal, o cartão de crédito e muitas vezes deixamos até de pagar contas pessoais para manter o negócio girando, fica bem mais complicado dividir tudo isso com um grey hair experiente, mas que sempre teve seu salariozão depositado no quinto dia último e não sabe o que é comprometer tudão no negócio, não fica? Dá pra entender isso também.

Se cheguei a uma conclusão? Não exatamente. Penso que não existe um certo ou um errado, nem um bom e um ruim. Fomos conversando, falando de um case, de outro, vindo dos EUA pro Brasil e vice-versa e, pensando nas coisas que coloquei acima, acho que o que vale é uma provocação - que fiz a mim mesmo: nós empreendedores brasileiros temos que refletir mais e melhor sobre essas questões pois em muito casos, por bobagens, podemos perder a oportunidade de fazer nosso negócio dar um salto, crescer, mudar de patamar e nós, os malucos criativos, poderíamos estar focados no que sabemos fazer de melhor, saindo da frente e dando espaço para quem veio para nos ajudar.

Ah, e mutos grey hairs poderiam pensar que talvez se juntar a um empreendedor maluco que criou um negócio e precisa de experiência, sabendo ouvi-lo e absorvendo o que ele tem de bom, pode ser muito mais bacana e rentável do que virar consultor.

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