Qua, 24 Jan - 17h31
Ênfase no social conquista brasileiroPor Rodrigo Martins
São Paulo, 24 (AE) - Quando o assunto é comunidade virtual, o Brasil foge às regras do resto do mundo. Para começar, o País é um dos poucos em que o Orkut vingou. Além disso, por aqui não houve, em três anos, uma debandada contínua de usuários de um site de relacionamentos para outro, o que já ocorreu nos EUA e na Europa. No que somos diferentes? "É a própria questão cultural", diz o pesquisador Theophilos Rifiotis, da Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC). "O MySpace (comunidade popular nos EUA), por exemplo, é mais voltado para a música. Já o Orkut tem muitas ferramentas para conversa entre usuários. E os brasileiros gostam muito de estar em contato", diz.
O próprio visual do Orkut é uma das explicações da adesão e longevidade do site. "Ele possui uma interface amigável ao Brasil", explica a pesquisadora Maria Bretas, da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG). "E quando foi lançada a versão em português facilitou ainda mais." Essas características aliaram-se a um ingrediente que deu um toque final para o site ganhar em cheio os brasileiros: só entrava quem tinha convite. "Os usuários gostaram dessa exclusividade", diz o pesquisador do Ibope Inteligência, José Calazans. "Como o brasileiro é muito social, ele precisa se integrar às coisas que estão na moda. Não ser convidado para o Orkut significava quase como não ter amigos. Todo mundo corria atrás de um convite."
Foi assim que o site chegou aos atuais 23 milhões de perfis brazucas, 58% do total. Nem depois de surgirem outros sites parecidos, além da demora causadas pela superlotação, denúncias de crimes e problemas como spam, os brasileiros abandonaram a comunidade. "Pela disseminação, esses problemas não afetam a popularidade" constata Calazans.
Mas por que tanta devoção, mesmo após três anos? "O Orkut cresceu muito e concentra muitos brasileiros. Ninguém sai pois os amigos estão lá e é possível xeretar a vida dos outros. É uma zona estável, difícil de quebrar", diz a pesquisadora Raquel Recuero, que estudou o Orkut sob encomenda do Google, dono do serviço.
Se a maioria dos usuários não abandona o site, o Orkut já dá sinais de estagnação. De acordo com Raquel, o número de brasileiros que se cadastra hoje está diminuindo. "Há uma estabilidade e uma quantidade de usuários que sai e entra a cada mês", diz. "Muitos já fizeram três ou quatro perfis, sempre ‘matando’ um, saindo do sistema e, depois de um tempo, retornando."
Essa característica de fidelidade dos "orkuteiros" já chama a atenção. E dá lucro. O consultor de Marketing Bruno Unger, 25 anos, descobriu no site uma forma de, ao mesmo tempo, trabalhar e ter tempo para surfar. "Tenho 200 grupos de discussão e divulgo eventos através deles. Ganho por isso e trabalho só três horas por dia."
O grande negócio de Unger aconteceu no início do mês. Ele prestou uma "consultoria" à rede de comunicações do Sul RBS e embolsou R$ 2 mil. "Passei o controle do grupo ‘Eu amo Floripa’ para divulgar um evento", conta. "Onde tem muita gente, sempre tem trabalho. E o Orkut é ‘o’ lugar."
&&&&&&&&&&
RETRANCA 1
SITE CONTINUA RECORDISTA EM DENÚNCIAS DE CRIMES
Nem só pela popularidade o Orkut chama a atenção no Brasil. Desde 2005, a comunidade chamou a atenção da mídia por causa de crimes que estariam ocorrendo em suas comunidades e perfis. Em janeiro de 2005, o jornal norte-americano "The New York Times" denunciava a existência de comunidades que incitavam racismo, homofobia e intolerância religiosa. Na época, instaurou-se uma investigação no Ministério Público de São Paulo.
Em fevereiro de 2006, a reportagem do "Grupo Estado" denunciou a existência de crimes como pedofilia, venda de drogas e comércio de receitas médicas. Junto a um dossiê de 150 páginas, a reportagem foi encaminhada pela ONG Safernet ao Ministério Público Federal (MPF) de São Paulo, que intimou a filial do Google no Brasil a dar explicações.
Na época, a justificativa da filial foi que não tinha poderes sobre o Orkut. "O escritório está no País apenas para vender, fazer o negócio crescer", disse o presidente brasileiro, Alexandre Hohagen.
O caso foi parar na Câmara dos Deputados, em Brasília. Em abril, a matriz do Google foi convidada para ajudar a solucionar o problema. A empresa disse que faria o possível, desde que isso "respeitasse as leis norte-americanas".
Em julho, o MPF entrou com uma ação para que o Google Brasil pagasse multa diária de R$ 7,6 milhões por não acatar as decisões que pediam os dados dos suspeitos, para auxiliar nas investigações.
Na ocasião, a diretora jurídica da empresa, Nicole Wong, veio a público e não descartou tirar o site do ar. "Espero que não chegue ao ponto de fechar as operações no Brasil e deixar de oferecer os serviços, que cheguemos a um acordo com a Procuradoria", declarou ao jornal "Folha de S. Paulo".
Essa polêmica ainda não teve fim. De um lado, o Google diz que repassa os dados dos suspeitos, desde que com ordem judicial e se pedidos à matriz da empresa, nos EUA. De outro, as autoridades do País querem que o escritório no Brasil seja o responsável, por estar submetido às leis daqui. "Enquanto isso, os crimes continuam", diz Thiago Tavares, da ONG Safernet. "Das 356 mil denúncias de crimes que recebemos em 2006, 94% eram no Orkut."
&&&&&&&&&&
RETRANCA 2
"QUE SAUDADE DO ORKUT DE 2004", DIZEM "ORKUTEIROS"
Em três anos, o Orkut mudou muito: novas ferramentas, versão em português, extinção de convite para se cadastrar... E tudo isso, que podia ser encarado como uma evolução, acabou mesmo causando é saudade em quem entrou na página pela primeira vez lá no comecinho, em 2004. "O excesso de spam e a superlotação tornaram o site muito chato", diz o consultor João Mascarenhas, 28 anos, que entrou na comunidade em maio de 2004.
Mascarenhas é dono da maior comunidade do Orkut, a "Odeio acordar cedo", com mais de 3,2 milhões de usuários. Surpreendendo quem o chama de "O rei do Orkut" e o admira por conseguir botar tanta gente num grupo só, o consultor diz preferir que a comunidade tivesse menos gente. "Antes, as pessoas do meu grupo contavam histórias engraçadas sobre acordar cedo, suas táticas para evitar o tormento, etc", diz. "Hoje, as pessoas só querem saber de fazer joguinhos. Ninguém mais quer discutir."
O cineasta Felipe Dall’Anese, 28 anos, entrou em março de 2004 no site e diz que, com a popularização, a privacidade de quem usa o Orkut foi para o espaço. "Hoje, todo mundo está lá, seus amigos e até sua mãe", diz. "Além disso, há espertinhos que querem xeretar sua vida. Pode ser até um assaltante, vai saber. Dou o mínimo possível de informações sobre mim."
Hoje, Dall’Anese usa o site mesmo é para divulgar as festas em que toca como DJ. "Aproveito a minha lista de contatos para divulgar a festa. É um ‘spam amigo.’"
Já para o engenheiro Carlos Teixeira, 26 anos, que também se cadastrou em março, houve uma certa evolução no serviço. "Não tem mais tantos erros nas páginas como no início."
Mas, colocando tudo na balança, ele diz que o serviço piorou. "Há hackers e pessoas mal-intencionadas. Retirei até a minha foto", diz. "Tenho saudade do Orkut de 2004."
&&&&&&&&&&
BOXE
CUIDADOS NO SITE EVITAM TRANSTORNOS
Com a explosão no número de usuários do Orkut e a criminalidade no site, é bom ficar esperto ao navegar na comunidade. Primeiro, para não expor toda a sua vida para xeretas ou mal-intencionados, é bom se ligar no que escreve nos livros de recado: lembre-se, a página é pública, qualquer um poderá ler.
Informações pessoais e fotos também devem ser colocados com cautela. "Fotos com sinais de riqueza e comunidades que mostram onde você mora, por exemplo, são um prato cheio para ladrões", diz o presidente da Safernet, Thiago Tavares. "Além disso, deve-se evitar pôr fotos íntimas, como de biquíni. Corre-se o risco de ter essas imagens em sites pornográficos."
Clicar em links no seu livro de recados também é uma fria. Usuários mal-intencionados enviam mensagens com links maliciosos para roubar a senha do Orkut e até de bancos.