Ter, 23 Set - 14h36
Com o aumento do custo da captação e o compromisso de atender à necessidade de financiamento das empresas para investimentos, o Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES) começa a negociar com empresas juros acima da Taxa de Juros de Longo Prazo (TJLP) para parte dos projetos. Um empresário do setor de infra-estrutura recebeu a proposta do banco de fomento para financiamento de 70% do seu empreendimento, sendo 40% pela TJLP e os restantes 30% pelo IPCA, mais juros de 3,5%, além do spread cobrado pelo banco com base no risco do projeto. O superintendente do BNDES, Cláudio Bernardo Guimarães de Moraes, confirmou em entrevista à Agência Estado as negociações e disse que essa foi a forma encontrada para garantir recursos para todas as empresas, em uma situação de enxugamento da liquidez internacional. A TJLP está em 6,25% desde julho de 2007 e o mercado acredita que o porcentual será mantido na próxima reunião do Conselho Monetário Nacional (CMN), nesta quinta-feira.A idéia é escolher projetos maiores e mais rentáveis, que suportem uma taxa de juros maior, garantindo mesmo assim o retorno ao acionista. Em alguns investimentos, a indexação será feita por uma cesta de moedas estrangeiras, mas no caso da infra-estrutura, Moraes considera o IPCA mais adequado, uma vez que a receita das empresas será em reais e não em dólar. "É importante que haja um hedge (proteção) natural para que não se repita o que aconteceu com o setor elétrico na época da privatização", afirma, referindo-se ao fato de, na época, os recursos terem vindo do exterior e as concessionárias de energia terem assumido dívidas em dólar, quando a receita da tarifa era em moeda nacional.
Apenas inovação e bens de capital contarão com 100%, ou perto disso, do financiamento do BNDES corrigido pela TJLP. Esses são setores considerados prioritários na política industrial do governo. No caso de insumos básicos, o banco tentará negociar o adicional de juros e para exportadores será oferecida a cesta de moedas estrangeiras. Embora infra-estrutura também seja uma prioridade do governo, Moraes explica que o entendimento do conselho do banco de fomento é que as empresas que investem no setor, por serem de grande porte, têm capacidade de absorver o custo maior sem comprometer a política de modicidade das tarifas de energia e dos pedágios. "Tudo está sendo negociado", afirma, lembrando que em alguns casos é possível oferecer um alongamento do prazo.
Não se cogita mudar os critérios em empreendimentos cujos leilões já foram realizados com a engenharia financeira fechada. Esse é o caso do complexo do Madeira, que inclui as hidrelétricas Santo Antônio e Jirau, com capacidade de geração de energia de 6,4 mil MW. Nesse caso específico, o BNDES se comprometeu a financiar 75% do total do investimento, em 20 anos, e seis meses de carência a partir da entrada em operação das usinas. A taxa é a TJLP para o total que será emprestado pelo banco.
A mudança da taxa para os novos projetos, segundo Moraes, não significa que os recursos do BNDES sejam insuficientes. Para 2008, o BNDES prevê desembolsos em torno de R$ 85 bilhões. "As captações e recursos próprios já cobrem esse valor", diz. De recursos próprios vindos da operação do banco são mais de R$ 40 bilhões, o restante vem de recursos do Fundo de Ajuda ao Trabalhador (FAT) e do Fundo de Garantia por Tempo de Serviço (FGTS). Além disso, o banco fez uma captação de R$ 12,5 bilhões no primeiro semestre e agora tem em andamento mais R$ 15 bilhões em captação da União.
O BNDES, por meio do BNDESPar, tem participações em várias empresas, que poderiam representar uma fonte de capitalização, mas neste momento o mercado de capitais não é uma alternativa viável. Antes do acirramento da crise financeira nos Estados Unidos, o BNDES chegou a contratar o Citigroup para modular a venda de sua participação nas empresas de energia elétrica Light, do Rio, e Brasiliana, holding que controla as concessionárias paulistas Eletropaulo e AES Tietê. Com a volatilidade do mercado de capitais e as empresas perdendo valor na bolsa, o banco de fomento postergou as duas operações. No caso da Brasiliana, toda a modelagem do leilão já estava pronta, inclusive, com o preço definido pelo Citigroup e pelo JP Morgan, este último contratado pela americana AES Corporation, sócia do banco de fomento na Brasiliana. A retomada do processo, quando for possível, exigirá novo estudo e modelagem.