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Blogs chegam ao cinema

Qua, 16 Jul - 15h20 Blogs chegam ao cinema

Por Lucas Pretti

São Paulo, 16 (AE) - Cada gole ou tragada de Clarah rendiam algumas palavras no blog. Os desamores geravam capítulos inteiros, assim como aventuras sem grana em algum buraco estranho de São Paulo ou Londres. As palavras provocaram, acalmaram, chocaram e ganharam vida própria. Mas aí já era outra a escriba, Camila, com uma vida ficcional bem mais interessante. Ela experimentou de tudo, polemizou, riu de si mesma e chegou aos jornais com dois livros publicados... Mas não tinha um rosto. Foi uma terceira mulher, Leandra, que fez Camila ganhar identidade.

"Nome Próprio" é o primeiro filme brasileiro a se basear em textos publicados na internet e ter como personagem principal uma blogueira. Clarah Averbuck, a autora, é a criadora de Camila Jam, vivida na telona pela atriz Leandra Leal. O filme, dirigido por Murilo Salles e com estréia prevista em todo País para sexta-feira, dia 18, não fala apenas de internet. Mas usa a rede para investigar o comportamento do jovem contemporâneo.

A relação é indiscutível. A internet fez com que as angústias e conflitos de pessoas comuns se tornassem públicos, diferentemente das gerações anteriores, que podiam até desabafar, mas em papéis estáticos, pouco acessíveis. A vida de Clarah Averbuck foi muito transformada pela interação com as palavras na internet. O diretor Murilo Salles levou a peculiaridade ao extremo e interpretou Camila como uma garota que só sobrevive se rodeada por letras (e por uma conexão).

Clarah criou na personagem Camila seu alter ego. Ela aparece em dois romances da escritora, Máquina de Pinball (Conrad, 2002) e Vida de Gato (Planeta, 2004), mas já era desenhada no blog Brazileira!Preta (brazileirapreta.blogspot.com), hoje desativado. Salles comprou os direitos sobre as obras e o blog e desde 2005 matuta a produção do longa.

O diretor carioca de 57 anos queria saber o que causa a solidão existencial contemporânea e quanto a internet tem de culpa ou salvação nisso. "É um filme sobre quem vive após o fim das utopias, o vazio de não ter motivo para lutar", afirma. O resultado foi um filme silencioso, contemplativo e de ação firme e contundente.

O longa conta episódios da história de Camila, brasiliense recém-chegada a São Paulo que leva a vida de carona no apartamento de amigos. Bebe, fuma, se dopa e vive intensamente mesmo a mais fugaz das paixões. Camila, um recorte da mulher contemporânea e da geração da internet, não titubeia ao se expor e não perde oportunidades.

Em uma das passagens, presentes no livro e na vida real de Clarah, ela pede ajuda financeira para os leitores do blog. Consegue até um lugar para morar antes de ser despejada. Em outra seqüência, ela deseja e passa uma noite com o namorado de uma amiga. Bêbada, ela nada nua, se afoga, é salva pelo tal namorado e acaba transando na praia mesmo. Os atos não são precedidos por qualquer julgamento. E a culpa depois se dissolve em e-mails e posts.

"Nome Próprio consegue fugir dos temas sociais e de violência que têm predominado no cinema brasileiro", disse ao Link a atriz Leandra Leal. "Nossa sociedade tem muitos problemas, é rica em complexidade, e deve ser tema de filme, claro. Mas nós optamos por uma solução mais madura."

Apesar dos recursos para produção terem somado R$ 1,3 milhão, os produtores consideram Nome Próprio um filme independente. Para divulgação, Salles teve apenas R$ 65 mil, contra, por exemplo, R$ 2,5 milhões de Meu Nome Não é Johnny. Foi obrigado a usar a internet e outras formas criativas e inovadoras para promover o filme (veja texto abaixo).

Clarah Averbuck sabe bem o que é isso. Antes do Brazileira!Preta, em 1999, ficou conhecida no mailzine CardosOnline, que revelou também os escritores Daniel Galera e Daniel Pellizzari. Recém-chegada em São Paulo após ter nascido e crescido em Porto Alegre (RS), Clarah transformou sua vida em ficção e acabou liderando um movimento que existia por causa da internet.

"Camila é muito influenciada por São Paulo, mas poderia ser de qualquer lugar cosmopolita. Nova York, Berlim, por exemplo", afirma a escritora. Apesar de seu universo estar representado em Nome Próprio, Clarah não participou do roteiro e de certa forma renega o resultado do processo criativo de Murilo Salles. "Faltou na Camila do filme o sarcasmo, uma característica bem marcante da Camila do livro."

Hoje, Clarah se mantém independente. Aceitou a idéia da editora Conrad e liberou para download gratuito o livro Máquina de Pinball (www.lojaconrad.com.br/download_maquina.asp). Recusou convites de grandes portais para hospedar seu atual blog, o Adiós Lounge (adioslounge.blogspot.com). Por isso cria a filha de 4 anos com alguma dificuldade. "Não tem problema fazer as coisas por dinheiro. Mas não dá para abrir mão de certas coisas."

Escrever na internet é uma dessas coisas. Arriscar e se divertir exageradamente também. No fim, a idéia é transformar a própria vida em personagem de blog, livro,filme. E entender que identidade é um troço que se ganha na marra.

CRÍTICO DA WEB

O diretor de "Nome Próprio", Murilo Salles, se motivou a filmar a obra de Clarah Averbuck após saber pelos jornais em 2002 que o blog Brazileira!Preta era o oitavo diário pessoal mais acessado do mundo. "Ali eu disse: ‘Opa, eu quero saber quem é esse ser humano’." Ele não nega sua "origem": é um homem de 57 anos sugerindo uma visão artística sobre o universo de uma mulher de 20 e poucos completamente ligada à cultura da internet.

Apesar do risco natural, o filme não cai em clichês. Acaba sendo mais uma reflexão sobre o isolamento contemporâneo, a busca por identidade de seres desamparados. "É maluco ficar diante de um monitor achando que está falando com o mundo inteiro, quando tem uma tela fria ali", diz. "Você pode dar sentido a isso, mas não necessariamente existe."

Por isso a Camila de Salles não é a mesma de Clarah. Mesmo evitando preconceitos, o processo criativo do diretor resultou numa protagonista mais frágil e vitimizada.

Salles também procurou fugir da temática "miserabilista e bárbara" exigida internacionalmente do cinema brasileiro. "Alguma coisa me dizia que o caminho era falar de internet."

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