Qua, 09 Jan - 14h10
Grafite para despoluir a decadênciaPor Filipe Serrano
São Paulo, 09 (AE) - A escalada de Zezão para fazer do grafite uma forma de ganhar a vida começou no sentido inverso. Foi para baixo. Zezão negou a si mesmo que pintaria grandes muros em avenidas e viadutos, onde toda a população em movimento pudesse ver sua arte. Preferiu descer até as galerias de esgoto emporcalhadas de São Paulo, entrar nas ruínas de fábricas abandonas e pintar as paredes de becos onde os únicos freqüentadores eram usuários de drogas e moradores de rua.
Nenhum dos colegas botou fé na iniciativa de Zezão. Decepcionado e sentindo-se rejeitado, ele resolveu buscar seu público em outro espaço: o virtual. No ano de 2000, vendeu sua motocicleta - até então ele trabalhava como motoboy - e com o dinheiro comprou o seu primeiro computador sem nem mesmo saber o que era Windows. "Senti que era o computador que me daria um retorno, que me daria dinheiro, para eu poder trabalhar com o grafite", afirma.
E deu mesmo. Zezão aprendeu rápido a manejar câmeras fotográficas, scanners e a entrar na internet. O passo seguinte era construir um site para mostrar o seu trabalho subterrâneo. E o jeito mais barato de conseguir um espaço na rede era criando um fotolog.
O site teve no total 1 milhão e 800 mil visitas até a metade do ano passado, quando foi tirado do ar da noite para o dia. Antes disso, Zezão até pagava para ter direito a publicar mais fotos. Mas, atingir tamanha visitação não foi fácil. "Durante essa época, passei minha vida na frente do computador", diz.
Zezão respondia aos comentários, agradecia elogios e tirava dúvidas dos curiosos sobre o seu trabalho. Um verdadeiro "networking", segundo ele, que tornou seu grafite conhecido.
Além disso, abaixo de cada foto publicada Zezão contava as histórias de como havia chegado no local, descrevia o clima do lugar e as pessoas que ele tinha conhecido e conversado por lá, como três índios que tomavam banho no esgoto do córrego Carandiru. "Que decadência, né, cara? Índio brasileiro tomando banho de esgoto."
Zezão sempre conviveu de perto com cenários de degradação urbana e social. Mas, com seu olhar crítico, percebeu que sua arte poderia dialogar com os espaços abandonados e, ao mesmo tempo, denunciar situações de miséria. "Sinto que os locais de abandono pediam meu trabalho. Gosto de pintar naquele lugar que tem um cara do lado fumando pedra. Eu falo com ele, e o cara não entende nada. E quando vou embora, ele se sente gratificado. Tento doar a minha arte", diz.
Até o monocromático azul que Zezão adotou nos desenhos tem relação com o protesto. "Li em um livro que o azul significava calma, positividade. E num lugar detonadão, o azul dá um grito", explica.
O formato cheio de curvas dos seus desenhos abstratos também é notável. E Zezão batizou de "flop" essa combinação de forma, cor e traçado. Apesar de ter outros trabalhos como o chamado "psicodélico" (no fundo da foto ao lado), foram os "flops" que marcaram o estilo único do grafiteiro.
O amadurecimento do trabalho trouxe mais reconhecimento para Zezão, principalmente através da internet. Ele logo criou novos canais de comunicação, como uma página pessoal no Flickr, um site oficial (www.artesubterranea.com) e ganhou uma seção no site www.lost.art.br, mantido pelo casal de fotógrafos Louise Chin e Ignacio Aronovich. O fotolog também foi reaberto, em novo endereço.
O YouTube também não ficou de fora. O grafiteiro aprendeu a editar vídeos e colocou filmes com cenas dos esgotos paulistanos "in loco". É que o cenário ao redor dos grafites de Zezão se torna tão importante quanto a própria pintura. E, por isso, fazer boas fotografias ou vídeos bem editados mostrando o contexto urbano virou uma obrigação.
Com a divulgação, em pouco tempo Zezão começou a receber e-mails de convites para exposições e de encomendas dos seus desenhos, principalmente, na área da publicidade. Para dar conta dos trabalhos encomendados, o Photoshop virou uma ferramenta indispensável. Zezão aprendeu a usar o programa de edição de imagens para corrigir os defeitos das suas primeiras fotografias, e fuçava no Photoshop, descobrindo novos efeitos quase como um passatempo.
Agora ele usa o programa para dar uma idéia aos clientes qual seria o resultado dos seus desenhos em salas, logotipos, flyers e até camisetas. Com o spray virtual do Photoshop, fica fácil fazer alterações.
Mas, trabalho encomendado também é considerado grafite? "Pra mim o grafite sempre vai ser subversivo, proibido, ilegal. Na galeria, é uma obra de um artista que faz grafite. O grafite só vai entrar na galeria quando vier à noite e arrombar a porta. Fora isso, grafite é rua, não é uma decoração", diz.
Boxe:
VÍDEOS | YOUTUBE
WEB | www.youtube.com.br/artesubterranea
DETALHES | O canal do YouTube tem seis filmes capturados e editados pelo grafiteiro.
FOTOS | NO ESGOTO
WEB | www.lost.art.br/
zezao.htm
DETALHES | O site traz belas imagens dos "flops" nas galerias de esgoto cheias de lixo.
FOTOLOG | PESSOAL
WEB | www.fotolog.com/vicio_z
DETALHES | Página onde Zezão coloca fotografias próprias do seu trabalho.
PERFIL | MYSPACE
WEB | www.myspace.com/zezao
DETALHES | O site reúne vídeos e fotos marcantes.