Por Claudio Prandoni
Terceira edição do simulador de guitarra eleva a série ao apogeu e promete briga boa com Rock Band
No começo do ano, comentei na análise de Guitar Hero II aqui no Yahoo! Tecnologia como era gratificante ver uma seqüência que consegue melhorar em todos os aspectos relevantes.
O mesmo pode ser aplicado a Guitar Hero III: Legends of Rock, quarta versão da série (não esqueçamos do mediano Encore: Rock the 80's) de simulador de guitarra da Red Octane, que chegou para PlayStation 2, Nintendo, Wii, Xbox 360, PlayStation 3, PC e Macintosh. Agora com pinta de estrela, traz também uma série de melhorias e mudanças.
A mais contundente é a troca do estúdio desenvolvedor. Sai a Harmonix, que concebeu originalmente a série e agora está cuidando exatamente de Rock Band, principal adversário de GH, e entra a Neversoft. Gamers mais ecléticos devem reconhecer os rapazes por trás dos jogos do Homem-Aranha e toda a franquia Tony Hawk. Ou seja, competência sobra, mas seria o bastante para tocar adiante uma das franquias mais populares nos últimos anos?
Felizmente, a voz da experiência falou alto aqui e perdurou o velho bordão de "em time que está ganhando não se mexe". Ou seja, GH III é em essência o mesmo Guitar Hero que todos aprenderam a amar. Ajustes na jogabilidade foram feitos no visível sentido de tornar a experiência mais desafiante.
Um dos grandes problemas do original era a precisão extrema que este demandava na hora de pressionar os botões. GH II foi bonzinho, deixando um grande espaço de tempo para entrar os comandos. Já a terceira versão opta por um meio termo que assustará muita gente a princípio - em especial os iniciados na última edição - mas que, a longo prazo, se mostra como uma configuração ideal, visto que incita os jogadores a se aperfeiçoarem sem tanto risco de tornar a jogatina frustrante, a exemplo do que acontecia muito no primeiro GH.
Outra acertada essencial: a sensibilidade do controle-guitarra é melhor reconhecida aqui, evitando chacoalhões ridículos e desnecessários que mais faziam perder a concentração e às vezes até não funcionavam. Agora basta levantar de leve. Já é o bastante para ativar o Star Power.
Quem adquirir o pacote do game que acompanha o novo joystick-guitarra ainda há de reparar em aprimoramentos muito bem-vindos no acessório. A destacar temos o botão para palhetar que é mais silencioso, diminuindo consideravelmente o "tec-tec" emitido pelos irmãos mais velhos. Os dispositivos coloridos para as notas oferecem precisão otimizada - condizendo assim com a própria mudança na jogabilidade - e o braço da guitarra agora é desmontável. Desengatilhando duas travas na parte anterior do acessório é possível soltar esta parte, tornando muito mais fácil armazenar a guitarra. Um bônus: nas edições Wii e Xbox 360 o controle funciona totalmente sem fio.
A versão Nintendo ainda oferece outras minúcias e é a única com suporte a vibração no controle. Visto que o Wiimote é encaixado dentro do acessório, esta edição acaba sendo a única que oferece vibração no controle (ao ativar o Star Power, por exemplo), o ruído de notas desafinadas sai da guitarra e a sensibilidade de movimento é ainda mais precisa que nas outras edições. Em contrapartida, no branquinho da Nintendo - e no PS2 - não rola um suporte online tão forte como nos outros aparelhos.
Música no Coração
Detalhes à parte, mais uma vez o aspecto em que Guitar Hero brilha intensamente é no set list musical. Desta vez mais do que nunca. Temos aqui o quase pornográfico número de 71 canções distintas. Detalhe enfartante: 51 delas estão em gravações originais. Impecáveis, inesquecíveis e imbatíveis. Nomes de peso como Aerosmith, Rolling Stones, Pearl Jam, Iron Maiden e tantas outras soltam suas vozes, riffs de guitarra e batidas pancadas na bateria. Se a curiosidade bater, não deixe de conferir a lista completíssima de faixas aqui.
Mas não apenas isso é demonstrativo do quão popular e poderosa a marca Guitar Hero se tornou. O que dizer, por exemplo, do fato de os produtores do game terem reunido os membros originais do Sex Pistols apenas para regravar Anarchy in the UK cujas fitas foram perdidas pela gravadora. Fantástico.
Mantendo a tradição, os gêneros musicais são variados, mantendo o apelo perante boa parcela de público. Ainda assim, desta vez é possível perceber uma leve inclinada em direção ao lado hard rock e heavy metal da brincadeira, quase em oposição à faceta mais country exibida em GH II. Prova disso é o bloco final de canções do modo carreira que traz Metallica, Slayer e Iron Maiden.
A lista de opções de partida acompanha a batida e é extensa. Além de todos os modos presentes no passado - Career, Training e Multiplayer - há as estréias da Co-op Career e outros tipos de disputa. O primeiro é idêntico à campanha para uma pessoa, com o diferencial de ser cooperativo - um jogador é a guitarra solo e o outro a base ou baixo - e contando com set lists diferentes e músicas exclusivas (faixas do Strokes e Red Hot Chilli Peppers estão aqui, por exemplo).
O outro elemento consiste em batalhas musicais contra outros guitarristas. No modo Single Player elas pintam como se fosse chefes de fase. Ao final de um bloco de canções um músico o desafia, incluindo artistas reais que aqui no caso são Tom Morello, ex-guitarra do Rage Against The Machine, e Slash, marcado principalmente pelos trabalhos no Guns'n Roses e Velvet Revolver. Alterna-se na execução de riffs complexos que, quando realizados com êxito, rendem poderes especiais para atrapalhar o adversário - mecânica parecida com Mario Kart numa comparação superficial. Tais batalhas podem ser recriadas também em multijogador. De maneira geral, a novidade é criativa e contribui no sentido de propiciar variedade ao game, mas não pense que reinventa a guitarra elétrica; apenas dá uma refrescada ao mudar um pouco o ritmo da brincadeira.
No mais, Guitar Hero III acaba cativando e se superando nos detalhes. O visual é o mais pirotécnico da franquia, o que fica ainda mais evidente nas edições de nova geração. Dezenas de efeitos de luz diversos, cenários amplos com variedade de animações na platéia, vestimentas, indumentárias e cabelos que tremulam ao vento e a batida da música. No PS2 e Wii, o potencial gráfico reduzido acaba gerando texturas menos definidas e um público feito basicamente de clones - todo mundo se mexendo igualzinho e bonitinho. Feio, mas nada que prejudique a diversão.
Os marcadores na tela também ganharam uma repaginada. Mais estilosos, ostentam agora também o número de notas acertadas corretamente. Uma melhora substancial fica por conta da ausência daquela irritante tremida ao se errar um acorde que geralmente resultava também em desconcentração e perda de ritmo.
Por fim, o conteúdo extra é denso e não se limita somente à extensa lista de canções. São muitas guitarras para comprar, personagens a habilitar (cada um com leque de roupas diferentes) e vídeos de making of que mostram a reunião do Sex Pistols e as sessões de captura de movimento de Tom Morello, Slash e Bret Michaels, vocalista do Poison que faz os trejeitos do cantor do grupo que aparece no game - sem contar que o rapaz aproveitou a ocasião e regravou a parte dele na música Talk Dirty To Me.
Solos Finais
Ainda que não revolucione estrondosamente a fórmula consagrada, Guitar Hero III: Legends of Rock consegue a proeza de superar o antecessor ao oferecer idéias novas e interessantes e também polir e lustrar as pouquíssimas arestas existentes. Ao final de novembro o páreo será duro contra Rock Band. Não apenas a nova franquia está sendo produzida pelos próprios pais de Guitar Hero como também tem o atrativo incontestável de múltiplos instrumentos.
Por ora, GH III tem ampla dianteira com sua experiência totalmente arrojada, elaborada e consolidada. Se será o bastante apenas os rockstars do controle poderão dizer.
* Claudio Prandoni é Diretor de Conteúdo Multimídia da Hive Comunicação e colaborador das publicações da Futuro Comunicação