Sex, 03 Jul - 03h18
Tentar acelerar a economia com medidas de incentivo a novos investimentos industriais é como uma pessoa tentar erguer-se puxando o próprio cabelo. Com a imagem metafórica, o coordenador do Grupo de Indústria e Competitividade do Instituto de Economia da UFRJ, David Kupfer, lembra que o pacote governamental não vai empurrar a indústria de bens de capital que patina, arrastando todo o setor para o crescimento lento. Kupfer não ignora a importância de medidas emergenciais. Ao contrário, defende que o governo use "todo o arsenal de medidas anticíclicas" que dispuser. Mas considera que já é momento de pensar em medidas estruturantes, para um pós-crise que, certamente, encontrará um Brasil com crescimento menos vigoroso. Só que, ao contrário de antes, acima da média dos emergentes. A seguir trechos de entrevista ao Estado.
O ritmo de produção tende a aumentar?
É esperado que o ritmo vá acelerando ao longo dos meses. Quando chegarmos em outubro, o mês da grande queda de 2008, vamos perceber crescimento mais intenso em relação ao ano anterior. Esse crescimento lento traduz aquela sensação, hoje já generalizada, de que o fundo do poço já foi atingido e estamos subindo a ladeira de volta, mas a velocidade está baixa. Os mais otimistas, que esperavam recuperação rápida, vão perdendo espaço para visões mais intermediárias, que apostam numa recuperação que poderá ter uma boa velocidade, mas não a ponto de salvar este ano.
O desempenho ficará negativo?
Não muito, mas vai ficar negativo. À medida que o tempo passa, precisamos de um ritmo de crescimento cada vez mais intenso para tapar o rombo que já ficou no passado. Mas o mais importante é a variação que está acontecendo na margem: a economia está acelerando e isso é bom.
Sustentada pelos bens de consumo...
Sim... os bens de consumo duráveis reagiram bem às políticas de incentivo do governo, com a renúncia tributária. Os bens de capital não reagiram e provavelmente vão demorar para reagir. Agora, com esse pacote novo, é possível que o conjunto de investimentos que estava na fronteira para ser decidido vai ter o sinal verde para continuar, retomar ou começar. Mas isso não é a maioria, é apenas uma fração dos que foram interrompidos.
O pacote é o suficiente para empurrar a indústria de bens de capital?
O pacote é para fazer a passagem até que a economia retome o ritmo. No caso do automóvel, você consegue antecipar consumo barateando o preço. Tira o IPI e antecipa consumo. Isso não vale para uma empresa. Alguém que iria trocar uma máquina não vai antecipar essa decisão porque a máquina ficou mais barata. Só vai botar a máquina nova quando perceber que há demanda. Por isso, não acredito num efeito expansionista da demanda tão imediato. As medidas vão tornar viáveis projetos que estavam na fronteira, aqueles em que o empresário fazia o cálculo e ficava em dúvida se ia pagar ou não.
De pouco adianta o incentivo?
O investimento, numa perspectiva mais longa, é mais nervoso do que a economia. Ele pula na frente, mas também é o primeiro a tombar. Enquanto não houver um ciclo expansivo forte, os investimentos não vão estourar. Não adianta uma pessoa tentar se suspender puxando o próprio cabelo. O investimento tem o acelerador, mas não é capaz de sair sozinho puxando a economia. Mas quando a economia entra num certo ritmo, as decisões de investimento começam a se avolumar e as taxas de investimento começam a estourar. Aí se intensifica o ciclo.
O sr. acredita em novo ciclo expansionista a partir de 2010? O contágio acabou ou ainda há setores que podem ser contaminados?
Difícil de responder. É prudente não descartar a possibilidade negativa e indesejável de a crise avançar em direção àqueles setores que sobreviveram melhor no primeiro período. Mas, à medida que o tempo está passando e os sinais de recuperação vão ficando mais firmes, vai ficando possível descartar um cenário de repique nos setores de bens de consumo. Mas essa possibilidade é preocupante. É importante o governo continuar disparando o arsenal de medidas anticíclicas que for disponível. Um repique traria as implicações para o mercado de trabalho mais graves e com mais consequências macroeconômicas. Não acho que esteja superado o risco. Ele existe e tem de estar na conta de quem formula as políticas.
Medida setorial é eficiente?
É importante não abrir mão de medidas de cunho emergencial e, ao mesmo tempo, cada vez mais pensar nas medidas estruturantes para um novo padrão de crescimento que virá quando a crise estiver superada. A economia brasileira tem tudo para retomar uma trajetória bastante feliz de crescimento, mas não vai ser igual aos tempos que passaram. Entre outras razões, porque a inserção externa vai estar muito diferente. O Brasil não vai conseguir chegar aos 5,5% de crescimento anual. Mas, ao contrário de antes, quando a gente crescia 5% menos do que a média dos emergentes, agora talvez a economia cresça 3%, mas vai ser mais do que a média. As informações são do jornal O Estado de S.Paulo.