Qui, 02 Jul - 17h40
Estudo do Instituto de Estudos para o Desenvolvimento Industrial (Iedi) aponta 21 de 41 subsetores industriais pouco ou não afetados pela crise econômica global que estão com tendência de contágio maior. Sete deles, ou um terço do grupo dos subsetores com tendência de aumentar o contágio, são do grupo de alimentos."O setor de alimentos é o último em que a crise chega", disse à Agência Estado o consultor do Iedi e professor da Unicamp, Júlio Sérgio Gomes de Almeida, ex-secretário de Política Econômica do Ministério da Fazenda, autor do estudo. "O consumidor corta primeiro a compra do veículo, do ventilador e do tênis. Alimentação, primeiro é cortada fora de casa, e, dentro de casa, é só no final, quando o emprego cai", disse. Para Gomes de Almeida, "o emprego já foi atingido".
No entanto, há outros subsetores de alimentação sem tendência de aumento de contágio, como fabricação de café e moagem de trigo, e até dois casos de recuperação: os de fabricação e refino de açúcar e sucos e concentrados de frutas. "Açúcar e café estão com bom mercado externo. Sucos caíram muito e estão recuperando e a moagem de trigo está bem no Nordeste, por causa dos programas sociais do governo", diz.
O estudo do Iedi foi preparado considerando os dados da pesquisa de produção industrial do IBGE até abril. Gomes de Almeida ressaltou, porém, que "alimentação, que dizíamos que está na fila (de um contágio maior no estudo), já teve subsetores com um desempenho ruim em maio", ressaltou Gomes de Almeida.
Um exemplo destacado na nota do IBGE à imprensa hoje é o de alimentos e bebidas elaborados para consumo doméstico, com queda de 2,4% em relação a maio do ano passado. O consultor Sílvio Sales, ex-coordenador de Indústria do IBGE, lembra que as outras categorias de uso estão caindo bem mais que os não duráveis, em que estão os alimentos. Para Sales, a alimentação vai ser atingida "se o mercado de trabalho, a massa salarial, mostrar um recuo acentuado". Ele considera que "existe esse risco, sim", dependendo de os setores mais atingidos na indústria continuarem demitindo.
O receio do professor da UFRJ David Kupfer é de que setores grandes empregadores, como os de vestuário e têxteis, sejam atingidos, o que levaria a um grande aumento do desemprego. A má noticia é que o estudo do IEDI coloca tanto têxteis quanto vestuário e acessórios como setores com tendência a maior contágio. Desses, o segmento têxtil ainda estaria com contágio abaixo da média.
Sales, porém, acha possível também que ocorra o contrário, "um círculo virtuoso, em que a massa salarial aumente e o mercado doméstico sustente a indústria". Sales observa que, pelo menos por enquanto, a massa salarial está sendo importante para o bom desempenho dos bens não duráveis.
Com tendência de maior contágio pelo trabalho do Iedi, aparecem, por exemplo, "abate de bovinos e suínos e preparação de carnes", "abate de aves e preparação de carnes" e "conservas de frutas e legumes, molhos e condimentos".
Segundo o estudo, esses setores não tiveram qualquer contágio da crise até abril. Já vinham com desempenho negativo antes da crise e a queda diminuiu no caso dos dois primeiros subsetores e no terceiro, a queda se manteve em 7,4% tanto de março a setembro quanto de outubro a abril, nas comparações com os mesmos períodos de um ano antes.
"Outros produtos alimentícios" e "óleo de soja em bruto, inclusive tortas, farinhas e farelos", que estavam com contágio muito abaixo da média, segundo o estudo, também aparecem na lista com tendência à maior contágio pela crise. Também é o caso de "beneficiamento de arroz", e "alimentos para animais", classificados como já tendo tido algum efeito da crise, porém, abaixo na média. No grupo de médio contágio, entra também "resfriamento e preparação de leites e laticínios".
O contágio ou não já ocorrido foi feito com base na produção até abril. Assim, aparece na lista da tendência a maior contágio a construção e montagem de aeronaves, inclusive reparação.
O subsetor teve crescimento de produção de 59,1% de outubro a abril devido a encomendas passadas. Por isso, aparece como ainda sem impacto da crise. A Embraer, no entanto, já divulgou cancelamentos de encomendas que vão impactar a produção no futuro. "Esse é um caso realmente que será atingido pelas encomendas e mercado externo. O IBGE conta a produção por homem/hora e houve demissões na Embraer", disse Sales.
Também está nesse caso de encomendas feitas com muita antecedência e que aparecem no estudo da IEDI sem impacto da crise, mas com tendência a aumentar o contágio, a "construção de embarcações, inclusive reparação". Outros setores "artefatos de concreto, cimento e fibrocimento" e "artefatos de perfumaria e cosméticos, exclusive sabonetes".
No caso das construções de embarcações, normalmente o impacto seria mais tarde, como prevê o Iedi, segundo Sales, mas ele considera que ele será amenizado e talvez até contrabalançado por investimentos que estão sendo feitos no Brasil em exploração e produção de petróleo e gás.
Na faixa dos que estão com contágio muito abaixo da média, mas com tendência de aumento, está "material de embalagem de papel, papelão e cartão". Há também outros subsetores de embalagem com tendência de maior contágio, na faixa abaixo da média de contágio, como "papel, papelão liso e cartolina, exclusive material de embalagem" e "embalagens de material plástico". Para Gomes de Almeida, "o contágio de embalagens acompanha setores mais tradicionais, como o de alimentos".
Esses, por sua vez, são usados por vários outros setores para a entrega do produto final. Também estão aí os "artefatos de metal estampados, de cutelaria, de serralheria e de ferramentas" e "preparação de couro e fabricação de artefatos, exclusive calçados".
Na faixa com contágio abaixo da média, o Iedi citou ainda como com tendência de aumento de contágio os subsetores de "extração de minerais não metálicos", "beneficiamento, fiação e tecelagem de fibras têxteis naturais", "eletrodomésticos da linha branca, exclusive fornos de micro-ondas", "extração de carvão mineral", "produtos e preparados químicos diversos".