Qua, 02 Abr - 14h20
Jornalista gaúcho, Cardosão ganha a vida como ‘cool Hunter’Por Gustavo Miller
Porto Alegre - Existem pessoas que exigem certo preparo do jornalista na hora de entrevistá-las. Ler sobre a vida do futuro entrevistado, fuçar na internet outras reportagens com ele e, lógico, anotar no bloquinho de papel algumas perguntas a não serem esquecidas na hora da conversa são algumas "regras" do manual do bom repórter (se é que isso existe...).
Com André Czarnobai, vulgo Cardoso, nada disso se aplica. É até injusto chamar a conversa com ele de entrevista. Foi um grande bate-papo: Cardoso é esperto, fala rápido e, quando menos se percebe, inverte os papéis e se torna o entrevistador. Talvez isso se explique por ele ser realmente jornalista... Ou pelo simples fato de ele ser um cara absurdamente bem informado, que fala de internet como poucos.
Não é à toa que seu ganha-pão atual é servir como "consultor criativo na área de análise de tendências de mercado e comportamento". Resumindo: grandes empresas o procuram para que ele as oriente a desenvolver produtos de comunicação para revistas, filmes, TV e internet, lógico.
"Ela (internet) sempre foi o meu cartão de visitas. Tu vai no meu site e vê os jingles que fiz, as trilhas sonoras para filmes, o histórico do meu blog, meus desenhos... Se tu quiser me contratar em qualquer área, ali tem tudo sobre mim", convida.
"Ali" é o site www.qualquer.org, cuja principal novidade é o blog Bugio (sim, é o nome daquele macaco que atira os próprios excrementos quando se sente ameaçado), onde Cardoso relembra seus tempos áureos de blogueiro. "Quando vi que os blogs estavam virando algo muito profissional e sério, desisti", afirma. "Muita gente entrou numa de que blog dá dinheiro... Cada vez mais virou uma coisa mal vista abrir mão de suas convicções por grana. Com o post pago, tu queima a tua credibilidade e a única moeda que se tem a oferecer na internet é a sinceridade", continua.
"Até cogitei colocar o banner do (sistema de publicidade online) Google Adsense, que pelo menos pagaria a hospedagem no site do servidor. Mas eu nunca quis que a internet fosse uma fonte de dinheiro, porque quero que ela seja mais possível para as minhas crenças", prega.
"Posso desenhar e fazer músicas para clientes que eu não faria naturalmente. Na web eu nunca quero que os interesses sejam comandados pelo público ou propaganda, mas por mim. Ela tem de ser puramente eu."
As primeiras palavras escritas por Cardoso na internet surgiram há 10 anos, com a criação do hoje cultuado fanzine via e-mail CardosOnline, extinto em 2001. O fanzine nasceu ao acaso: recém-ingresso na faculdade de jornalismo, Cardoso enfrentou uma greve e ficou sem aulas por um bom tempo. Por isso, seus colegas começaram a trocar e-mails. Com tempo livre de sobra e querendo mostrar o que pensava, ele enviava para a lista da sala textos em que dizia o livro que acabara de ler ou resenhava um filme que tinha visto. Havia até colunismo social.
O pessoal gostou da idéia e também passou a mandar textos para o grupo da sala. O negócio cresceu tanto que virou um "clube de literatura por e-mail". O CardosOnline, ou COL, tinha oito escritores fixos e diversos colaboradores, além de cerca de 5 mil leitores até o seu término.
O fanzine revelou escritores como Daniel Galera, Clarah Averbuck e Daniel Pellizzari. Para comemorar a primeira década do e-zine, o COL irá lançar um livro com os melhores textos de seus três anos de vida - já está no ar um site para a data, o http://inventamosainternet.com.
Outro fato que também fez o COL ganhar fama foi as suas festas, o Bailão do Cardosonline. "Bateu uma vontade de conversar com os leitores fora da internet. É até contraditório, porque dizem que a internet faz as pessoas mais individualistas e voltadas para si mesmas. Acontece o contrário: além de buscarem a socialização na web, os internautas fazem isso fora dela - querem ter a mesma relação no mundo real", analisa.
Para ele, esse comportamento é cada vez mais natural. "A MTV e a Nickelodeon fizeram um estudo em vários países que mostrou: se o jovem consegue moldar na internet o tipo de informação que quer, agora também deseja fazer isso na sua vida", informa. "Gerações anteriores escolhiam um trabalho para se manter e comprar algumas coisas. Agora o jovem pensa no que quer da vida para só então procurar um emprego que se encaixe nela", exemplifica.
Outro conceito levantado pelo gaúcho, indicando como a revolução da internet é mais comportamental que tecnológica, é de solidariedade - algo imperante na rede. Cardoso cita o hackerismo. "Os hackers ficaram famosos por roubar dados virtuais, mas ao ler o manifesto deles e saber mais sobre o movimento, tu percebe que seu primeiro mandamento prega que se ganha pontos com a comunidade ao desenvolver algo novo e compartilhar esse conceito."
Um conceito de solidariedade com fins um tanto escusos, é certo. "Mas dá para tirar uma coisa boa disso tudo, pois tu está levando essa relação para o mundo real, o que é muito benéfico", argumenta. "Está rolando muito forte essa campanha de cuidar do planeta, do próximo. As futuras gerações têm uma grande chance de terem um convívio mais solidário e pacífico. A internet tem grande influência nisso", acredita.
BAIXO CALÃO - Apesar de ter ganho notoriedade no campo da literatura, Cardoso hoje trabalha em um projeto que aborda outro tipo de arte: a gráfica. Há pouco mais de um ano ele criou, junto do paraense Caco Ishak, o Baixo Calão (www.baixocalao.com), uma galeria virtual de artes lowbrow, a chamada arte de baixo nível, que têm influências de HQs, grafitti e punk.
Já há na página cerca de 40 artistas. Eles criam o desenho e o exibem no site, que comercializa as obras pela internet. Por ser o intermediador, parte do valor da obra fica com a dupla. Os quadros variam de R$ 7 a R$ 5 mil.
As vendas também oscilam, de três a cinco trabalhos por mês - afinal a proposta do Baixo Calão é atender a um público especial. "A internet nos possibilitou fugir de influências massificadas e ajudou muito na criação desses nichos", justifica. "Quem não estiver na internet não vai a lugar algum. Ali tu faz tudo sozinho, não usá-la como ferramenta de marketing pessoal é até meio burro: vai contra tudo o que está acontecendo no mundo", conclui.