Por Ernesto Dias
Imagine um mundo em que os produtos ficassem todos misturados nas prateleiras de supermercados. Ou ento em que as ruas no tivessem semforos, placas ou nomes, e os botes dos controles remotos mudassem a cada vez que voc desse um comando. Voc certamente se sentiria frustrado, irritado e perdido. Pois esta a sensao de muitos internautas quando se deparam com sites que no so projetados de acordo com um conceito que anda cada vez mais na moda: usabilidade.
Os especialistas no assunto definem a usabilidade como a facilidade de uso de qualquer coisa de um site a um automvel, de um liquidificador ao seu telefone celular ou o controle remoto do DVD. Embora parea novidade, o conceito antigo, e remonta ao surgimento de disciplinas como ergonomia e comunicao visual. Mas s agora a usabilidade virou moda porque, com a era da internet, o consumidor pode testar um produto ou servio antes de efetivamente compr-lo.
o que aposta Jakob Nielsen, um dos papas da usabilidade. Especialista em design de interfaces, o dinamarqus trabalhou como engenheiro na Sun Microsystems at 1998, quando se tornou um defensor dos usurios, como se autodenomina. Desde ento, Nielsen estuda a facilidade de uso de sites e concluiu que a usabilidade fator determinante para vender produtos e servios na internet. Isso porque, diz, a concorrncia est a apenas um clique se seu site no for capaz de prender o usurio tornando-o um consumidor fiel, ele certamente no voltar.
Em seu trabalho de evangelizao e consultoria, Nielsen d palestras e palpites sobre sites de todo tipo. Desde 1996, por exemplo, ele elenca os dez principais erros de usabilidade que ele viu pela rede. Como muitos deles se repetiram no decorrer do tempo, Nielsen elegeu alguns principais a evitar na construo de sites.
O primeiro conceito errado, segundo Nielsen, compreender a web como uma simples brochura da empresa. A internet pode muito mais um meio interativo, que permite realizar transaes e ter contato em tempo real com o cliente, argumentos que tm conspirado para a tal da Web 2.0, outro termo da moda. Em seguida, ele alerta para o risco de gerenciar um projeto web como um projeto empresarial tradicional. Segundo ele, isso leva a um site com interface e arquitetura que espelham conceitos ou estruturas internas da empresa, que no necessariamente fazem sentido para o usurio. Alm de textos e informaes incorretas ou mal-escritas, outro problema, segundo Nielsen, criar pginas para agradar os executivos da companhia e esquecer das conexes e limitaes do usurio que realmente vai usar o site. Por fim, ele critica o tratamento insular que algumas empresas do aos seus sites, quando esquecem de citar links apropriados a outras pginas e no criam pontos de entrada adequados para que outras pessoas ou empresas estabeleam links.
Em seu site Useit.com, Nielsen publica artigos e colunas sobre seus estudos, que variam entre o uso de links, dicas para usabilidade de blogs e at salrios de profissionais de usabilidade. Mas h estudos que vo alm do mero postular regras e tentam compreender um pouco da fisiologia humana o que remete ergonomia. Um deles, publicado em abril, utilizou rastreamento dos olhos dos usurios para descobrir que os internautas lem as pginas em um padro semelhante letra F: as duas primeiras faixas de contedo, e, em seguida, uma faixa vertical mais esquerda.
O padro F - Segundo Nielsen, h trs importantes implicaes do padro F de leitura de sites: os usurios no lem textos palavra por palavra, como voc provavelmente est fazendo com esta matria; os dois primeiros pargrafos de uma pgina devem conter as informaes mais importantes sobre ela; e o uso de palavras-chave como interttulos ajuda o leitor a identificar temas de interesse quando ele passa leitura vertical da pgina.
Nielsen foi um dos primeiros estudiosos do tema, mas h vrios outros autores que discutem usabilidade. Um deles Steve Krug, autor do best-seller No me faa pensar (esgotado no Brasil), que fala de maneira extremamente didtica sobre webdesign consistente (veja quadro). Segundo o autor, a usabilidade no possui verdades absolutas nem frmulas. Tudo depende do contexto, do pblico-alvo do site. Ricardo Lopes, analista de usabilidade do Ibope Inteligncia, concorda: Temos uma recomendao que evitar figuras pesadas, porque o acesso banda larga ainda no generalizado no pas. Mas se uma agncia de publicidade quer ter um portflio online para mostrar para seus clientes, como vo deixar de ter isso em seu site? O pblico dessa agncia certamente tem mquinas boas e acesso em banda larga.
Para Ricardo, que h quatro anos trabalha na rea, procuram projetos de usabilidade empresas que entenderam a importncia estratgica da internet para os negcios. Ele conta que h profissionais de design de interfaces e usabilidade que trabalham dentro de organizaes maiores, muitas vezes multinacionais, mas que o campo de consultoria nesta rea tem crescido. Estes projetos de usabilidade, em geral, comeam com uma reunio de briefing ou uma entrevista de objetivos estratgicos com o cliente. Isso serve para saber qual a vocao que a empresa quer dar ao site, explica Lopes. A partir da, o trabalho se divide em duas frentes: em uma, os profissionais desenham os testes com usurios; em outra, o site passa por uma anlise heurstica, que nada mais do que submeter a pgina ao seu esgotamento tcnico, tentando provocar possveis erros que causem o abandono da navegao. Links quebrados, problemas tcnicos de arquitetura da informao e erros ortogrficos so alguns dos itens observados.
Os testes com usurios, por sua vez, costumam reunir o pblico-alvo do site, de preferncia pessoas que no tenham familiaridade com a pgina. Eles devem realizar tarefas preestabelecidas para averiguar se o site consegue cumprir com os objetivos definidos pela empresa vender uma passagem area, marcar uma consulta mdica ou verificar um endereo em um mapa. O que enriquece bastante essa fase so os comentrios, as crticas e as dificuldades que observamos nos usurios, conta Lopes. Os testes so gravados, para mostrar empresa as dificuldades que os usurios tiveram com o prprio site. E se surgir dvida sobre quantos usurios convidar para o teste, Nielsen tem a resposta: segundo seus estudos, em mdia, grupos de 20 pessoas alcanam um grau satisfatrio de confiabilidade.
Por fim, os resultados da anlise heurstica e das entrevistas gera uma lista de prioridades de reformulao do site. Muitas vezes, os tcnicos no pensam como usurios e os usurios no pensam como tcnicos. As empresas costumam investir em tecnologias para o site e em pessoal qualificado para a equipe. Mas o usurio, em casa, quando vai navegar no site, parece perdido em um labirinto. O teste de usabilidade ele serve para validar ou rejeitar o que as equipes tcnicas pensaram, afirma Lopes.
Embora ainda haja muito para se fazer na internet quando o assunto usabilidade, o conceito comea a extrapolar o mundo da internet e do software. Comea a existir uma percepo de que h uma relao entre o mundo dos bits e o mundo dos tomos, afirma Marcelo Zuffo, coordenador da rea de meios eletrnicos interativos do Laboratrio de Sistemas Integrados da Escola Politcnica da USP. A usabilidade da TV Digital, por exemplo, alvo de pesquisas no laboratrio, que responsvel pela definio do set top box que ser adotado no Brasil. A usabilidade intuitiva da TV Digital muito importante, por causa dos servios interativos que vo surgir, conta. O laboratrio tambm avalia atualmente a usabilidade do laptop de US$ 100 de Nicholas Negroponte.
Dez maiores erros de webdesign de 2005 - Eleitos pelos leitores do site Useit.com, de Jakob Nielsen - Fonte: Useit.com, Jakob Nielsen
1 - Problemas de legibilidade - Fontes ruins, de tamanho pequeno ou com pouco contraste em relao ao fundo da pgina.
2 - Links fora de padro - Links difceis de compreender ou localizar, que no obedecem aos padres web (sublinhado e colorido, na maioria das vezes em azul), links visitados e no-visitados sem diferenciao de cor, links sem explicao sobre para onde levam ou que abrem em outra janela do navegador sem qualquer utilidade.
3 - Flash demais - O uso excessivo de Flash pode afastar usurios e dificultar a compreenso do site. Segundo Nielsen, os internautas preferem uma navegao previsvel, e o Flash deve ser utilizado para dar recursos adicionais aos sites. Se seu contedo chato, reescreva-o ou contrate um fotgrafo profissional.
4 - Contedos inadequados para Web - O contedo para a internet deve ser objetivo e responder s principais perguntas que o usurio tem ao entrar em seu site. Linguagem direta e simples tambm ajudam.
5 - Mecanismos de busca ruins - A busca um dos principais mecanismos que um bom site deve ter. Mas no adianta possuir um buscador interno, se ele s abranger parte do site, ou ento tiver restries como a incapacidade de procurar palavras com menos de trs letras.
6 - Incompatibilidades com navegadores - Embora o Internet Explorer ainda seja o navegador mais utilizado, browsers como o Firefox e o Opera tm uma base fiel e crescente de usurios. Como nem todos os recursos de codificao de pginas funcionam da mesma forma em todos os navegadores, um bom projeto de site deve contemplar testes nos principais navegadores.
7 - Formulrios grandes e desnecessrios - Antes de criar um formulrio de feedback ou identificao de clientes, procure cortar questes desnecessrias, diminua ao mximo os campos obrigatrios e faa com que o foco do cursor seja automaticamente ativado para o primeiro campo do formulrio j no carregamento da pgina (isso poupa um clique).
8 - Ausncia de informaes de contato - E-mail, telefone e endereo geram pontos de credibilidade para sua empresa e devem estar presentes em uma pgina Sobre ns.
9 - Layouts congelados - Quando voc fixa a largura de seu site em um determinado nmero de pixels, quem tem um monitor com resoluo maior ter parte da tela inutilizada, em branco, e quem tem um monitor menor ou de mais baixa resoluo ser obrigado a usar o scroll horizontal (que, c entre ns, no algo comum na internet)
10 - Fotos com zoom inadequado - Recurso muito comum em sites de comrcio eletrnico que, s vezes, cometem o erro de exibir a mesma foto quando o usurio clica em ampliar. Se voc usa este recurso em seu site, pode decepcionar muitos clientes.
No faa seu visitante pensar - Conceitos e dicas de Steve Krug para ter um site melhor
Segundo Steve Krug, guru de usabilidade e autor do livro No me faa pensar, o uso da internet frentico e incompleto. O usurio est sempre com pressa, ele no reflete nem l direto o que passa por seus olhos. Isso mantm o foco do uso da internet na tarefa atual e no seu interesse pessoal voc normalmente entra na internet com um propsito especfico, seja ver e-mail ou escolher o filme, o restaurante ou o roteiro de viagem do fim de semana. Alm dessa pressa de videoclipe, em que as imagens se sobrepem na forma de links, o internauta tambm clica rpido porque se permite errar (afinal, o boto Voltar est a para isso) e tambm porque adivinhar um processo divertido (o boto Estou com sorte do Google no obra do acaso). Baseado nesses conceitos, Krug prope alguns conceitos sobre os quais o webdesigner deve refletir na hora de construir ou reformar um site. Confira:
1 - Navegao bvia - Procure dar caminhos auto-explicativos a seu visitante. Uma boa forma de fazer isso buscar gerar afirmaes na cabea de seu usurio (aqui est a busca! este o menu!), e no dvidas (onde fica tal seo? posso clicar aqui? o que quer dizer este smbolo?). Para chegar a estas afirmaes, Krug recomenda ter em mente algumas perguntas antes de construir ou reformar sua pgina: Para qu serve meu site? Quem o usurio de meu site? Quais so as ferramentas e contedos que ele buscar aqui?
2 - Hierarquia visual - Seu site uma grande vitrine. Defina prioridades, d ttulos e ateno ao que mais importante. Agrupe itens relacionados graficamente e tambm em sees o site da Caixa (www.caixa.gov.br) um bom exemplo: direciona abas de navegao com as principais funes para cada pblico que pode acessar o site.
3 - Minimalismo na dose certa - Na mesma linha de Nielsen, Krug prega a eliminao do desnecessrio. O guru da tese de que, quanto menor e mais direto o site, mais fcil de usar ele . Prova disso o prprio Google (www.google.com) o objetivo principal do site, a busca, priorizado visualmente e simplifica a vida do usurio. Alm disso, voc no precisa exibir ao usurio todo o contedo de seu site logo de cara. Isso pode assust-lo. Filtre as categorias principais, exiba-as em destaque e deixe uma opo mais... para o usurio se aprofundar em uma rea que lhe interessa.
4 - Arquitetura da informao - Uma boa rvore de contedo ajuda o usurio a compreender melhor o que seu site oferece. Isso porque na internet, diferentemente do mundo real, no h senso de proporo ou direo. Em um supermercado, por exemplo, voc presume que o sabonete estar fisicamente prximo das escovas de dente talvez no mesmo corredor. Reunir contedos semelhantes sob uma mesma seo ajuda o usurio a se encontrar em seu site. Prova disso o diretrio de contedos do Yahoo! (http://dir.yahoo.com), que desde a pr-histria da internet possui 14 categorias principais sob as quais o buscador cataloga todos os sites.
5 - Voc est aqui - Algumas convenes tambm ajudam a vida do usurio. Marcar os links visitados com uma cor diferente, por exemplo, tem por efeito diminuir essa falta de proporo e direo da web. A busca fundamental ela equivale a procurar um vendedor quando voc entra na loja e no quer perder tempo procurando o que quer. A barra de navegao da mesma importncia ela equivale a percorrer os corredores de uma loja e observar placas e categorias de produtos. Mant-la em um mesmo local durante todo o site tambm d ao usurio a sensao de controle sobre o contedo. Outro recurso a utilizao da linha de status (home > primeiro nvel > segundo nvel) utilizada, por exemplo, no site Useit.com e tambm no diretrio de buscas do Yahoo!.
6 - Profundidade de navegao - Outra discusso comum quanto arquitetura da informao sobre a quantidade de cliques necessrios para que o usurio chegue a determinado ponto do site. Para Krug, depende. Uma rvore de contedo muito rasa pode permitir chegar a um contedo em poucos cliques, mas tambm pode tornar sua pgina principal carregada demais, com muitas opes de entrada. Por outro lado, uma rvore mais profunda exige mais cliques, mas tambm pode ajudar o usurio a segmentar melhor o contedo do site e navegar com mais segurana. Para Krug, o que importa no o nmero de cliques, mas a facilidade dos cliques. Cliques, segundo ele, so escolhas e o papel do webdesigner facilitar as escolhas do usurio.
7 - Metforas com o mundo real - Nada mais bvio do que o smbolo de uma lixeira para o local onde voc deve arrastar arquivos que deseja apagar. Esta metfora fala a favor da usabilidade. Outra metfora fsica so as abas de navegao elas ajudam o usurio a se localizar, tornam a navegao evidente, e do movimento para o site, j que do a sensao de trazer o contedo para frente. O site Download.com utiliza abas e cores de forma bastante eficaz.
Para navegar
Sites internacionais
www.useit.com: site de Jakob Nielsen, com dicas, artigos e informaes.
www.usability.gov: informaes e recursos do Departamento de Sade e Servios Humanos do governo dos Estados Unidos.
www.upassoc.org: Associao de Profissionais de Usabilidade dos EUA, com dicas, publicaes e recursos para profissionais da rea.
www.usabilityfirst.com: informaes bsicas, cursos, humor e vagas do setor nos EUA.
www.usableweb.com: mais de 950 links sobre sites de usabilidade
Sites nacionais
www.lsi.usp.br: Laboratrio de Sistemas Integrveis da Poli-USP, que atualmente estuda a usabilidade da TV Digital e do laptop de US$ 100.
www.ibrau.com.br: Instituto Brasileiro de Amigabilidade e Usabilidade, com dicas, artigos e servios.
www.usabilidoido.com.br: abordagem heterodoxa de usabilidade, no to minimalista quanto pregam os gurus clssicos.
www.design.eti.br: usabilidade e design de interfaces, com dicas de links e livros.
Para ler
Projetando Websites - Jakob Nielsen - Editora Campus - 416 pginas
Homepage Usability: 50 Websites Deconstructed* - Jakob Nielsen - New Riders Press - 138 pginas
Don't Make Me Think* - Steve Krug - New Riders Press - 224 pginas
Information Architecture for the World Wide Web - Louis Rosenfeld e Peter Morville - O'Reilly Media - 500 pginas
Handbook of Usability Testing: How to Plan, Design, and Conduct Effective Tests - Jeffrey Rubin - Wiley - 352 pginas
*As edies em portugus esto esgotadas.